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Os 40 anos do inferno em “O Expresso da Meia-Noite”

Sem alardes, um dos maiores clássicos cinematográficos sobre a privação da liberdade chega aos 40 anos. Lançado em 1978 e ganhador de inúmeros prêmios – entre eles o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado -, O Expresso da Meia-Noite (Midnight Express) apresentou de forma crua uma visão nebulosa da realidade das prisões turcas. Não que o protagonista não fosse culpado, que seus crimes devessem ser perdoados, a despeito de todo o temor já existente das detenções daquele país, ou que sua condição de cidadão americano fosse lhe garantir acomodações especiais. Ele mereceu seu calvário. O inferno existe e pode estar logo ali.

Para Billy Hayes seu pesadelo particular começou quando resolveu guardar lembranças das férias. Fez do corpo depositário de uma grande quantidade de haxixe (o produto turco tem suas propriedades alucinógenas altamente concentradas) e foi pego. Turista tem sempre jeito e cara de turista. Deve chamar mais atenção ainda se carregar droga para uma grande viagem em seu corpo.

Billy Hayes existiu de fato. Ainda vive, fez participações em filmes e tentou aventurar-se no universo das produções e argumentos cinematográficos. Do relato das suas experiências na prisão – o autor foi detido em Istambul em 1970 – surgiu a adaptação para as telas.

Inicialmente preso sob a acusação de posse de entorpecentes, e na condição de usuário de drogas, Hayes foi encaminhado para uma prisão com inúmeros outros estrangeiros. Sem dominar o idioma turco e desconhecendo o sistema legal daquele país, viu sua pena inicial de quatro anos ser aumentada para trinta quando sua acusação inicial foi alterada para a de traficante de drogas. Nunca o fogo do inferno abranda.

A realidade soturna das celas e corredores, os maus tratos, a indolência da polícia turca e dos meios de justiça daquele país, são elementos recorrentes no filme que traça um impressionante retrato da degradação humana. Destaque para a atuação segura e objetiva, sem excessos, de John Hurt, no papel do detento Max. Indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante (vencido por Christopher Walken, de O Franco Atirador, outro grande filme daquele ano), Hurt fez um personagem já mergulhado no limbo existencial e sem perspectivas das detenções estrangeiras.

Quando as esperanças no sistema legal turco, na família e na diplomacia americana cessam, Hayes é levado a sair de seu estado de angústia e agir para forçar uma fuga, se não espetacular, mas angustiante. É necessário ressaltar que o filme dirigido por Alan Parker traz ‘soluções’ para diversas situações muito diferentes daquelas encontradas no livro. A fuga é uma delas. Por anos o autor do livro, o verdadeiro Billy Hayes, destacou que muitos aspectos da sua narrativa foram modificados, chegando a pedir desculpas à polícia turca numa patética e desnecessária manifestação – afinal, arte é o que está feito, não se cabem pedidos de perdões. Risível a ação de Hayes se lembrarmos que o roteiro é também dele, no papel de auxiliar de Oliver Stone na adaptação. Poderia, portanto, a qualquer momento, impor restrições ou modificações.

Descartados os exageros da narrativa, O Expresso Para a Meia-Noite é um filme que continua atual, sobretudo pela angústia que Parker consegue imprimir na sequência de imagens, na fotografia centrada, destacando movimentos com lentidão e aspereza em diversos momentos – técnica que viria a ser repetida em outros filmes de Parker e de Stone. Existe um quase cheiro nas sequencias dirigidas pelo cineasta seguindo rigorosa orientação de Stone, detalhista em seus roteiros. É possível se nausear com o odor dos corredores ou na presença dos outros detentos. A decomposição humana pode ser retratada. O Expresso da Meia-Noite conseguiu. E não se trata de um filme de redenção, mas de sobrevivência.

O auge de Brad Davis

O Expresso da Meia-Noite representou o auge do ator Brad Davis, intérprete de Billy Hayes. Pela atuação Brad recebeu um Globo de Ouro e foi indicado a inúmeros outros prêmios. De 1985 a 1991 o ator viveria um calvário com a degradação física ocasionada pelo HIV. Sua condição o teria levado a optar pelo suicídio assistido, cometido em 1991, com pouco mais de 40 anos.

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Marcelo Adifa

Publicado por Marcelo Adifa

Marcelo Adifa é jornalista, roteirista e redator. Autor de Exílio (2015); A quem se fizer estrela (2016) e Saltar Vazio (2018), entre outros livros de jornalismo, poemas e romances.