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Olhos Puxados: Gosto de você

Olhos Puxados: Gosto de você | Anime | Revista Ambrosia

Continuando hoje com o Olhos Puxados, daremos seqüência ao que abordamos na semana passada acerca da linguagem não-verbal. Em minhas aulas e conversas informais ouço, com mais freqüência do que gostaria, muitas pessoas tecerem comentários negativos sobre o modo de exprimir sentimentos dos japoneses. Em sua maioria, há um senso comum, pelo espectro visual brasileiro, de que japoneses são frios, rígidos e incapazes de demonstrar afeto por quem amam, seja quem for – mas não é bem assim.

Relembrando o que citei na edição anterior:

“As razões dos japoneses serem assim tão comedidos oriundam-se de princípios muito internos acerca de respeito ao espaço individual de cada um. O cuidado para com o que outro pensa e o como ele vai se sentir com devidas palavras ou atitudes são intrinsicamente ligados ao gestual.”

Sendo um japonês, cuidar de suas palavras e de seus gestos é como um jogo de xadrez contínuo, onde cada peça mal colocada é uma gafe grave aos olhos da sociedade. Quaisquer demonstrações sentimentais, sejam boas ou ruins, são vistas como um sinal de fraqueza porque denotam um indivíduo incapaz de lidar bem com suas questões pessoais. É por isso que situações comuns para os ocidentais causam estranhamento ou até desconforto para os japoneses.

Família

A hierarquia familiar japonesa é a baseada na relação de respeito e obediência aos pais. O pai, responsável pela renda da casa, é tradicionalmente o chefe. Pelo fato de a carga horária de trabalho ser muito extenuante, é muito raro haver uma proximidade afetiva entre pais e filhos; portanto, também não há certas cobranças culturais como as que ocorrem no Brasil, como por exemplo o costume capitalista de se dar presente no Dia dos Pais. A mãe, responsável pelas prendas domésticas, é quem deve responsabilizar-se praticamente sozinha pelo afeto dos filhos – coisa difícil de se fazer quando os mesmos passam o dia inteiro fora de casa no colégio. Logo, os poucos momentos de união familiar tornam-se únicos para todos. A demonstração de preocupação surge disfarçadamente em conversas durante o jantar, ou quando a mãe preocupada com o filho que vai prestar alguma prova acorda no meio da noite para lhe levar um lanche noturno.

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Da parte dos filhos, tirar notas boas, passar no vestibular e formar-se são exemplos de sucesso que os pais anseiam ver, sendo portanto a representação-mor de afeto que o filho pode dar. Há um sentimento muito forte de gratidão embutida nisso. Quando já adulto, o afeto se mostra justamente em o filho respeitar a velhice dos pais e não insistir que os mesmos venham a morar consigo e sua nova família, mas que a mesma vá constantemente visitá-los.

Amizade

Os laços que unem amizades no Japão normalmente baseiam-se em situações iguais às do Ocidente: interesses em comum. Seja para o lazer, idealismo, identificação mútua ou evitar a solidão, o que muda é apenas a forma com que se mantém as amizades. É normal para alguns jovens, especialmente de grandes cidades como Tóquio, dividirem-se em tribos com interesse comum e praticamente fecharem-se nas mesmas.

Amor

Os enredos do amor são um caso à parte. Assumir para si próprio que ama uma outra pessoa é uma prova de muita paciência e convívio mútuo. Raro de se ouvir um japonês que tenha apaixonado-se à primeira vista. Mais comum é o mesmo lhe citar um número infindável de características positivas acerca da pessoa amada, que certamente só com um período razoável que se conseguiria descobrir.

O complicado é mesmo assumir tal sentimento para a outra pessoa em questão. O medo deles de ser rejeitado é muito grande. Para declarar-se, faz-se uso de metáforas singelas, como a mulher que prepara um obentô (marmita) para o rapaz amado, o chocolate que é dado no Valentine’s Day ou o marshmallow que é retribuído à garota no Whiteday.

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O Valentine’s Day é o dia dos namorados comemorado comumente no hemisfério Norte, em fevereiro. Nesse dia, as mulheres dão chocolates para os rapazes que gostam e no Whiteday, duas semanas depois, os homens retribuem a gentileza com marshmallows.

Quando já se está em um relacionamento, as demonstrações de afeto ficam restritas à privacidade do casal, sem presença de terceiros e, mesmo assim, o uso de palavras de frases afetivas não é muito comum. Até mesmo o “eu te amo” clássico e tradicional é incomum: em seu lugar, um “gosto de você” é mais normal. A durabilidade dos relacionamentos amorosos, entretanto, continua sendo uma questão individual e deve ser analisada caso a caso.

E para terminar a nossa conversa desta semana, vou contar um caso bem interessante. Certa vez em uma aula de cultura japonesa, eu presente, foi perguntado a uma de minhas professoras :

“Você que conhece bem a cultura do Brasil e do Japão, pode dizer pra nós qual a diferença entre o homem brasileiro e o homem japonês? Qual você prefere??”

A resposta dela foi:

“Olha, em termos de família, o homem japonês é mais honesto, dedicado e superprotetor, só que os brasileiros são mais carinhosos né…”

Até semana que vem!

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