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Cáustico, poderoso e genial: “Parasita” é o filme do ano!

 

O extrativismo social já é por si só um grande antagonismo de classes. Parasita pega essa teoria e transforma na grande prática cinematográfica do ano.

O diretor sul-coreano Bong Joon-ho faz aqui sua obra-prima pelo olhar agudo sobre essa iconografia de seu país super desenvolvido. E é impressionante como ele faz sua história funcionar tão bem na medida realista e na perspectiva alegórica. Impressionante.

Somos apresentados a uma família em situação de total pobreza. Pai, mãe e os dois jovens filhos estão desempregados. Vivem numa espécie de porão, bem subsolo, tendo que lidar com bêbados que passam na rua e mijam em sua janela. Um dia, o esperto filho Ki-woo (Choi Woo-sik, excelente) tem a oportunidade de dar aulas particulares de inglês para um adolescente, filha de uma família bem abastada. Assim, ele vê a possibilidade de colocar todos os seus parentes trabalhando na casa.

O pai como motorista, a mãe como governanta e a irmã (Park So-dam, maravilhosa) como terapeuta infantil do irmão pequeno da adolescente. Assim, as famílias acabam se conectando. Os ordinários quase miseráveis e os abastados, com uma esposa insegura e um marido ensimesmado, sem que os mesmos saibam da ligação familiar de seus agora, funcionários.

Essa relação vai num crescente tão extraordinário que não cabe mencionar aqui para onde a história vai, muito menos os outros personagens importantes que adensam a narrativa. Bong guarda surpresas absurdas para a história que quer contar. E o que é melhor, sabe exatamente o que está fazendo.

O filme não se chama Parasita a toa. As relações sociais refletidas nesses personagens são totalmente ligadas no sentido de seu título. Por isso a tensão é crescente e corrosiva. A fotografia se vale das obviedades (claustrofóbica na pobreza, ampla e reluzente na riqueza) para desconstruir as perspectivas. Bong coloca a câmera sempre numa maneira de contar a trama pela intertextualidade da imagem. E ainda cria tensão com isso. Um mestre. Basta lembrar de O Hospedeiro, seu excentricidade filme de 2006, em que começava a exercitar essa sua expertise.

O roteiro que parte de uma ideia até batida, investe na personalidade de seus personagens. Todos têm uma função naquele extrato. Todos têm uma importância naquele contexto. Todos são reflexos sociais em suas ações, sobretudo numa cena trágica final absolutamente humana.

É muito inteligente a forma como filme justifica a aparente ingenuidade da classe alta através apenas do olfato, ou “cheiro de pobre”. Há toda uma construção dramática por trás da história. E Bong leva a sério não se levar a sério. Há um humor esquisito, assim como uma empatia compassiva. Por isso até que ele usa uma tempestade para ser o ponto de virada da história.

Um arremate dramatúrgico sórdido e eficiente, que nos leva para uma conclusão extrema que faz todo o sentido naquela lógica entre extrativismo social e antagonismo de classes citado lá no começo.

O que se extrai desse final é a pura genialidade de Bong, objetivamente em observar os comentários sociais de forma cáustica e banhada a ironia fina como só o bom e raro cinema pode proporcionar. Cannes tinha razão: Parasita é até aqui, o filme do ano!

Cotação: Mitológico (5 de 5)

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Publicado por Renan de Andrade

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