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Curral (2020), as eleições municipais em uma ficção que emana da realidade

SINOPSE: Chico Caixa (Thomás Aquino) é um homem humilde e ex-funcionário da distribuidora de água de Gravatá, em Pernambuco, local que sofre com a escassez hídrica. Ele é recrutado por um amigo de infância, o advogado Joel (Rodrigo García), que precisa conquistar votos de um bairro popular fundamental para conseguir se tornar vereador. Para se eleger os dois usam o fornecimento de água como moeda de troca com a população. Chico se vê confrontado entre suas necessidades financeiras e seus princípios.

Análise

O Cinema de Pernambuco, premiado por diversos prêmios de festivais de cinema de prestígio, nacionais (Festival de Brasília) e estrangeiros (Veneza, Cannes), continua forte após anos de um ciclo de renascimento. E é o que encontramos nesse filme, que aposta num tema comum ao nosso país.

A frase dita pelo candidato ao vereador: “Sou advogado, não sou nem político”, é uma citação bem piegas quando sabemos que muitos políticos brasileiros vêm do Direito. Em Curral (2020), novo filme de Marcelo Brennand, temos esses momentos demonstrado em camadas, uma ficção que transborda da nossa realidade.

Documentalista, Brennand envereda num roteiro ficcional com uma aborda da realidade de muitos municípios, pleito para prefeito e vereadores, a politicagem que envolve essas eleições e aqui, a má distribuição da água em uma cidadezinha de Pernambuco. Algo que já fez em um documentário Porta a Porta (2010) quando documentou as eleições municipais de 2008.

O diretor escolhe métodos documentais de filmagem que colocam um suspense ao realismo corrupto desse período eleitoral, ao mesmo tempo. O roteiro gira em torno da justiça e do desafio de fazer negócios fortes o suficiente para vencer a eleição. O roteiro oferece poucos insights sobre por que a corrupção é tão comum no país. Há séculos as coisas são assim, faz parte da tradição, da forma como as coisas se fazem: ‘voto de cabresto’, uma forma de pressionar os eleitores a escolher um determinado candidato, desde o início da nossa jovem República. A violência como forma de afirmação de poder. Pouco debate público, principalmente persuasão, por todos os meios necessários.

O protagonista é a figura do assessor de campanha. Chico Caixa (Thomás Aquino, de Bacurau), é apresentado como um Robin Hood, pega o caminhão-pipa da prefeitura e leva água para a zona rural da cidade, que padece com a seca.

Demitido por causa dessa ação, entra na campanha de um amigo, o advogado Joel (Rodrigo García, da novela Amor de Mãe). Defensor público que decide entrar na política, prometendo não fazer aliança com o prefeito Vitorino (José Dumont em participação especial) que tenta a reeleição e nem com o seu opositor, um barão de Recife, ficha suja. Entretanto, as práticas da compra de voto e pedido de favores de eleitores surgem, caindo a faceta do que foi colocado para o protagonista.

A confirmação adversa de Curral é fatal, esboçada no próprio título, é sentida por quem assiste e pela população da cidade no filme, durante a campanha, mas o roteiro do diretor e de Fernando Honesko carece ao não mostrar mais da amizade entre Caixa e Joel. Mesmo assim, é bem desenvolvido, numa aula de montagem em bons três atos de história, um roteiro simples e conveniente para o espectador.

Representa bem o momento atual, com seus ícones, a polarização que o país se acostumou a abraçar, o domínio de uma massa cega, e a desesperança de um Salvador da Pátria, espertando sobre o nosso status quo cativado em nossos 500 anos de formação. Curral é sensível em mostrar que a aceitação da população frente aos anseios de cada eleição e ácido em mostrar que mesmo conformados sempre descobrem um jeito de se virar. No fim, o protagonista leva a lição que muitos estão a sentir no Brasil de 2021.

Nota: Ótimo – 3.5 de 5 estrelas

Curral (2020), as eleições municipais em uma ficção que emana da realidade
3.5 / 5 Crítico
Avaliação

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