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Festival do Rio: Jonas Trueba traz conto de veraneio para nos revelar a poesia dos momentos mortos

O trailer de “Virgem de Agosto”, quinto longa metragem do diretor espanhol Jonás Truebas, me fez pensar que seria um daqueles filmes europeus nos quais as personagens vão flanando por aí, indo de encontro a várias outras pessoas, conversando sempre e refletindo sobre a vida. Eu não estava errada, mas o filme provou ser bem mais do que isso.

Itsaso Arana interpreta Eva com leveza e sensualidade, não por acaso este nome simbólico, de uma mulher representativa do feminino e da busca incessante pelo conhecimento, da relação limiar entre o sagrado e o profano e entre o desejo e o etéreo, elementos estes que pairarão não apenas através das personagens como também por Madri, cidade pano de fundo onde tudo acontece.

Eva é uma mulher de trinta e poucos anos, atriz, que parece estar em pausa, na espera de um recomeço e no silencioso mergulho para si mesma, dando um tempo de um caminho mais conhecido e se afastando também daquilo que a impediria de ser espontânea ou receptiva. Munida do bom e velho mantra “o que eu tenho a perder?”, que surge com mais facilidade para alguns nos períodos de férias, ou de viagens, Eva parece estar imbuída de um sentimento que mistura ingenuidade e coragem, cheia de ímpeto para se permitir experiências novas e sinceridades imprevisíveis. 

De modo mais imediato, e para propósitos de sinopse rasa, o filme nos apresenta esta mulher, que vai viver em um apartamento emprestado por um conhecido, ao longo do mês de agosto, um dos meses de verão mais quentes da Europa, nos quais lojas fecham e quase todos saem de férias. Quase como um ato de fé, Eva decide permanecer em Madri, mesmo sabendo do movimento de escoamento pelo qual a cidade sofre.

O ritmo se estrutura narrativamente através da contagem do passar destes dias. O tempo é lento, um tempo na medida dos acontecimentos. Este ambiente de lentidão, de veraneio, do feminino, e de certa inocência nos faz lembrar da cinematografia de Eric Rohmer, e sobretudo de um de seus filmes, O Raio Verde. Além disso, um outro que me veio à mente foi Frances Ha, de Noah Baumbach, pelo aspecto transformador das protagonistas e por cada cena acabar se tornando uma oportunidade para olhar pra si e pro mundo com novos olhos.

Aos poucos, a misteriosa Eva vai se deixando conhecer através de encontros inesperados, conversas com novos conhecidos e com velhos amigos, que vão nos revelando sobre sua história e seu passado. E aos poucos também, o que parecia ser apenas uma contemplação da realidade com diálogos rasos e sugestões de sentimentos ganha detalhes mais profundos e momentos nos quais o imaginário artístico e sentimental do diretor se mescla com a banalidade poética do dia a dia, nos permitindo nos identificarmos com essa calma inquieta da protagonista e ainda nos permitindo sucumbir a reflexões em torno da consciência de estarmos vivos. 

Em poucas palavras: “Virgem de Agosto” me surpreendeu e se mostrou um filme mais denso do que eu esperava. Sua protagonista, cheia de curiosidade infantil e falta de perspectiva, reflexo de uma realidade atual confusa e volúvel, aproveita o verão como parêntesis da realidade e, em meio a gestos, silêncios e diálogos, toca o espectador sutilmente, revelando o encanto e o milagre nas entrelinhas do quotidiano.

 

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