Minissérie “Santos Dumont: Mais Leve que o Ar” é brilhante retrato do pai da aviação | Críticas | Revista Ambrosia
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Minissérie “Santos Dumont: Mais Leve que o Ar” é brilhante retrato do pai da aviação

Um homem apaixonado pela liberdade, que acreditava que há espaço para todos no céu. Um visionário, um inventor, um audaz e um pacifista. Ou “um gênio da mecânica, com alma de poeta”: são muitas as maneiras de descrever Santos Dumont, o pai da aviação, um dos mais ilustres brasileiros de todos os tempos, que finalmente recebe, pelas mãos da HBO e da Pindorama Filmes, uma biografia televisiva à sua altura: a minissérie “Santos Dumont: Mais Leve que o Ar”.

Tendo crescido em um cafezal, filho de um barão do café que era também entusiasta das novas tecnologias, o pequeno Alberto Santos Dumont devorou os livros de aventura de Julio Verne, passando a sonhar com histórias de exploração como aquelas que lia. O pai, compreensivo, percebe que o jovem não tem tino para os negócios, e permite que o filho vá fazer experiências mecânicas em Paris. É assim que começa a saga do “Petit Santos”.

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Um detalhe que me incomodou no primeiro episódio foi a adição, quase de alguns segundos, de um criado negro chamado Emanuel, que leva a comida ao pequeno Alberto Santos Dumont. O negro encarna o mito do bom selvagem de Rousseau, sendo amável, burro e submisso ao seu “sinhô”. É o menino branco, o pequeno Santos, que tem de lhe ensinar a ler, mas o negro é simplório demais para querer aprender. Este é um detalhe narrativo comum na ficção brasileira: o menino ou jovem da época do império que é tão benevolente que trata um negro como gente. Ciente deste problema narrativo, prossigamos.

Assim como todos os visionários, Santos Dumont tem de lidar com autoridades com visão limitada, que preferem seguir as regras a ouvir a voz da razão, personificada pelo excêntrico moço brasileiro. O coronel Chevalier (Jean Pierre Noher) despreza Santos Dumont por ele não ser francês, e recorre inclusive à sabotagem para não vê-lo triunfar. Pouco antes de seu voo histórico com o 14-Bis, inclusive, Santos Dumont era considerado ultrapassado, um inventor que já havia criado tudo o que podia.

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Segundo a minissérie, Santos Dumont foi inspirado por Thomas Edison e se ressentia com o destaque dado aos irmãos Wright, que disseram ter feito todo seu progresso às escondidas, enquanto Santos Dumont e outros pioneiros franceses davam a cara a tapa com inventos que nem sempre saíam do chão. Ademais, Santos Dumont jamais requereu patentes de suas invenções, alegando que suas ideias eram de domínio público.

Tendo dito que um entusiasta da aviação não poderia ser também pai de família, Santos Dumont nunca se casou, mas foi influenciado por várias pessoas ao longo da vida. Vemos a relação de Santos Dumont com duas mulheres: Aída de Acosta (Bruna Scavuzzi), socialite norte-americana de origem espanhola, e a legendária dançarina Mata Hari. Sua amizade com o cartunista Sem (Pedro Alves) também é importante desde o primeiro episódio, bem como suas relações familiares e sua parceria e relação mentor-pupilo com o artesão Lachambre (Maurice Durozier), responsável pelas lonas de seus balões e dirigíveis.

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A partir do terceiro episódio, temos, junto à dramatização dos acontecimentos, filmagens reais tomadas das invenções de Santos Dumont, no começo do século passado. Isso mostra como o brasileiro atraía a atenção de todos, a ponto de ter suas geringonças registradas em película poucos anos depois da invenção do cinema. Ver estas imagens na tela é um breve espetáculo à parte.

A série tem diálogos em português, espanhol, francês e inglês. João Pedro Zappa (protagonista de Gabriel e a Montanha, de 2017) se sai muito bem como Santos Dumont, gênio criativo e competitivo, e a semelhança física com o inventor surpreende. João Pedro teve de passar por um curso intensivo de francês para desempenhar o papel. No último episódio, destaca-se a maquiagem e as próteses usadas no ator Gilberto Gawronski para que ele interprete os anos finais do inventor.

Segundo o diretor Estêvão Ciavatta, o maior desafio foi reproduzir com fidelidade os voos de Santos Dumont. Para isso, a equipe usou um pouco de computação gráfica e muita mão de obra – inclusive recrutaram o engenheiro Alan Calassa, que construiu uma réplica em tamanho real do 14-Bis que levanta voo. Tal engenhoca única pode ser vista na minissérie, e saber que ela funciona de verdade, embora não de maneira prática, torna mais interessante nossa experiência como telespectadores.

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Com algumas pontuais tomadas sabiamente aéreas, a minissérie tem em sua direção de arte uma de suas mais primorosas e impressionantes características. Os figurinos são excelentes, bem como a reconstrução de cenários da Paris da Belle Époque.

Mostrando que sempre é possível ir além, Santos Dumont nunca parou de sonhar, inovar e desafiar as expectativas. Em dado momento na minissérie, Sem diz a Santos que “você é inspiração para todos os artistas.” E Santos Dumont deveria continuar sendo sempre nossa inspiração.

Cotação: Épico (5 de 5 estrelas)

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