Quando as pedras gritam e a poesia agradece | Críticas | Revista Ambrosia
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Quando as pedras gritam e a poesia agradece

Penalux lança obra completa de Antonio Carlos Secchin

Antes de conhecer a poesia de Antonio Carlos Secchin fui apresentado à sua generosidade. Em prefácios e notas escritas a livros de outros poetas, nas manifestações em entrevistas e em redes sociais, o que sempre vi em Secchin foi o digno comportamento de quem estende a mão – e a voz – ao próximo.

Em sua poesia mergulhei aos poucos. Escritos esparsos, pílulas e encantos que apontavam a complexidade de sua produção. Seu primeiro livro a cair-me em mãos foi Todos os Ventos, logo mais, Elementos, ambos adquiridos alguns bons anos atrás em uma feirinha na Cinelândia, Rio de Janeiro, pelo preço módico de um real. Seguiram-se os ensaios, seara em que Secchin é dos melhores do ramo no Brasil. Estes me foram presenteados por Ferreira Gullar em oportunidades que tive de conversar sobre estética e crítica com ele.

O novo livro de Secchin, compilado de sua produção, nos comprova (mais uma vez) que em tudo há poesia, ainda que não enxerguemos no correr dos dias. Basta que a força bruta que nos envolve, que os percalços e dificuldades que nos cercam sejam lapidados, que corram feito pedras por águas violentas, perdendo assim a aspereza e ganhando brilho. E quando nos assopram as pedras, ouvimos da sua beleza. Assim é em Secchin, num tempo em que os desafios são muitos; para a literatura, para a poesia e mesmo para a democracia a quem vestem roupas de bruxa e sonham em liquidar numa fogueira (bruxas e livros, alimentos para fogueiras ao longo dos séculos!).

A carpintaria poética de Antonio Carlos Secchin é digna dos maiores artistas brasileiros. Sua condição de imortal apenas reforça sua qualidade. Ao publicar Hálito das Pedras, sob a curadoria e organização de Diego Mendes Sousa e cuidadosa edição de Tonho França e Wilson Gorj, a paulista Penalux apresenta um livro denso, rico e saboroso. É seguramente uma das grandes publicações do ano.

Segmentado em quatro capítulos (Pedras Fundamentais, Pedras de Fogo, Pedras Polidas e Pura Pedraria) vemos uma poética em plenitude, sem excessos. De uma beleza singular e esteticamente perfeita, algo que está muito acima do que se produz atualmente no país. Em poemas com rimas delicadamente ajustadas, naturais, sem deixar aquela impressão de artificialidade que notamos em muitas obras contemporâneas dos seus (e meus) pares. O ajuste (ou encaixe?) das rimas em seus poemas é preciso:

AUTORIA

Por mais que se escoem

coisas para a lata do lixo,

 

clipes, cãibras, suores,

restos do dia prolixo,

 

por mais que mesa imponha

o frio irrevogável do aço,

 

combatendo o que em mim contenha

a linha flexível de um abraço,

 

sei que um murmúrio clandestino

circula entre o rio de meus ossos:

 

janelas para um mar-abrigo

 

de marasmos e destroços.

Na linha anônima do verso,

 

aposto no oposto de meu sim,

apago o nome e a memória

 

num Antônio antônimo de mim.”

Ou nessa belíssima construção:

 

DE CHUMBO ERAM SOMENTE DEZ SOLDADOS

De chumbo eram somente dez soldados,

plantados entre a Pérsia e o sono fundo,

e com certeza o espaço dessa mesa

era maior que o diâmetro do mundo.

 

Carícias de montanhas matutinas

com degraus desenhados pelo vento,

mas na lisa planície da alegria

corre o rio feroz do esquecimento.

 

Meninos e manhãs, densas lembranças

que o tempo contamina até o osso,

fazendo da memória um balde cego

 

vazando no negrume do meu poço.

Pouco a pouco vão sendo derrubados

as manhãs, os meninos e os soldados.”

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Antonio Carlos Secchin (divulgação)

Antonio Carlos Secchin é daqueles autores a quem se deve recorrer em períodos férteis, guia da produção mais refinada do Brasil, ou em escassez, como bastião e inspiração que é. Da forma como mudei – e moldei – minha escrita ao descobrir Armindo Trevisan, tenho certeza que o farei ao reler a obra de Secchin, sempre acrescentando, absorvendo o que há de melhor em nossos poetas.

Secchin faz uma poesia prazerosa de ser lida ou ouvida. Hálito das Pedras, em sua pequena tiragem é um artigo de luxo para quem preza a literatura. Numerados e assinados pelo organizador e pelo autor, os livros são peças fundamentais às melhores bibliotecas. Sorte aos poucos que as adquiriram; foram apenas 80 exemplares.

Com Hálito das Pedras a Editora Penalux inaugura a série Item de Colecionador. Na sequência de Secchin está previsto o lançamento da Antologia Poética de Antônio Cícero. Hálito das Pedras não deixa de ser um manual para tempos difíceis. Sigamos suas instruções:

INSTRUÇÕES

Aperte o cinto em caso de emergência

É proibido falar com o motorista

Favor deixar a grana da gorjeta

Não alimentar o pombo ou o turista

Libere o pombo em caso de polícia

É permitido beijar o manobrista

Evite circular pela direita

Tem gente demais por essa pista.”

Hálito das Pedras (162 páginas, 2019), de Antonio Carlos Secchin, sob organização de Diego Mendes Sousa, é o primeiro livro da série “Item de Colecionador” da Editora Penalux.

 

Classificação: Ótimo

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Publicado por Marcelo Adifa

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