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Resenha: Memórias de um Freixo

Adaptado de um livro do escritor coreano Choi Yong-tak, Memórias de um Freixo retrata um momento dramático e violento da história recente coreana conhecido como o “Massacre das Ligas Bodo“.

Durante o verão de 1950, logo no início da Guerra da Coreia, as autoridades sul-coreanas organizaram a eliminação de dezenas de milhares de civis, oponentes políticos declarados ou simples simpatizantes, por medo do contágio comunista. Esse massacre, realizado pelo exército e pela polícia sul-coreanos, deixou entre 100.000 e 200.000 mortos, incluindo mulheres e crianças. Posteriormente, o evento foi deliberadamente obscurecido pela história oficial da Coreia do Sul. Apenas na década de 1990 que valas comuns foram encontradas e alguns perpetradores do crime foram chamados a testemunhar.

Nesta história cujo narrador é uma árvore que habita um dos vales onde ocorreram os massacres, o autor mobiliza o leitor por meios gráficos excepcionais através de um conjunto de imagens de beleza sombria e marcante. Kun-woong Park é um autor virtuoso e comprometido, e faz um trabalho de longo prazo que visa exorcizar os erros dos governos coreanos desde a independência em 1945.

Análise

Uma árvore testemunha um massacre. Através de sua folhagem, sua casca e suas raízes, ela narra o assassinato de milhares de civis pelas autoridades durante a Guerra da Coréia em 1950. Este conto original, mas assustador, se agarra ao horror de um momento sensível na história da Coreia do Sul

A árvore é um freixo, o único daquela paragem, a testemunha de uma tragédia, o massacre da Liga Bodo.

O Massacre

Rhee Syngman, o primeiro presidente da Coreia do Sul (1948 e 1960), prendeu 30.000 comunistas ou simpatizantes para enviá-los a campos de reeducação.

Em 1950, a Coreia do Norte invade a Coreia do Sul. A guerra é declarada. O presidente da Coreia do Sul então pediu que os membros da Liga Bodo fossem executados. Ajudados pelos anticomunistas, os soldados matam sem julgamento, com frieza.

Não foi até a década de 1990 que valas comuns foram descobertas. Até esta década, um manto de chumbo envolveu esses massacres. Só em 2008 que a Comissão de Verdade e Reconciliação deu início a um trabalho colossal para divulgar a verdade. Os historiadores relatam um massacre de 100 a 200.000 civis.

Kun-woong Park optou por adaptar o conto de Choi Yong-tak num manhwa (mangá coreano) de tirar o fôlego, que mantém o leitor em suspense com uma narrativa singular, com um tom entre o desapego e o horror.

O narrador é essa árvore; uma de tantas que testemunharam essas atrocidades a seus pés. A história se baseia sobretudo no espanto da planta. Na verdade, ela não entende bem o que está acontecendo, por que esses homens estão reunidos e por que os soldados os estão massacrando. É essa distância que surpreende a história; como se o freixo fosse um daqueles homens mortos, homens que também não sabem o que estão fazendo lá. Esse artifício permite questionar a desumanidade dos homens e o absurdo de algumas de suas ações.

A força de Memória de um Freixo reside também na dureza das imagens do autor. O leitor pode sentir toda a violência das armas nos quadrinhos em preto e branco arrepiantes. Nada lhe é poupado, nem os corpos despedaçados, nem o sangue, nem os animais que fazem dos corpos as suas refeições, nem as famílias que caminham sobre os cadáveres para encontrar os desaparecidos. No limite, hipnotizado por tanta precisão e credibilidade no assunto e no design.

A força da natureza também está no centro do manhwa: o freixo que não entende, que continua a crescer graças aos corpos em decomposição (como os insetos e os animais que se alimentam dele), mas também as valas comuns que desaparecem com o tempo.

Um trabalho comprometido com a verdade.  Assim, Memória de um Freixo está na veia de outros álbuns do sul-coreano que tratam sobre a Guerra da Coréia. A história tenta homenagear esses homens injustamente assassinados, quão bela é a história em quadrinhos quando investiga, destaca fatos históricos voluntariamente esquecidos, restaura a dignidade de mulheres e homens e, assim, torna-se um portador de memória!

Memórias de um freixo: um dos mangás mais fortes lidos este ano. Um tapa na cara, narrativa e visual para um assunto de tamanha violência.

Nota: Excelente – 4 de 5 estrelas

Resenha: Memórias de um Freixo
4 / 5 Crítico
Avaliação

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