“Salamandra” e o Brasil visto pelos olhos de estrangeiros

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Querendo ou não, é fato consumado que o Brasil alimenta a imaginação dos estrangeiros. Prova disso são as muitas histórias escritas e filmadas por estrangeiros que se passam no Brasil. Uma delas é o romance “Salamandra”, escrita por Jean-Christophe Rufin e nunca traduzida para o português, mas que agora chega aos nossos cinemas em forma de película. Apesar de dirigida por um brasileiro, a narrativa não perdeu o exotismo da história original.

Deitada na areia, uma francesa aproveita o verão nordestino. Aproxima-se dela um jovem chamado Gilberto (Maicon Rodrigues), que lhe entrega um folheto sobre uma festa e vai mais além, apesar da barreira do idioma: pede-lhe emprestado o protetor solar e pede também que ela passe o protetor nas costas dele. A francesa é Catherine (Marina Foïs) que, após perder o pai, está passando um tempo com sua irmã no Brasil.

Uma noite, num clube, Catherine e Gil se reencontram e engatam um romance. Quando é advertida pela irmã que não poderá mais trazer Gil ao apartamento, porque Gil mexera nas coisas da irmã, Catherine não tem dúvidas: vai morar com Gil. Eles não falam sequer a mesma língua, mas, por mais piegas que isso soe, se entendem na linguagem do amor… e se tornam sócios num negócio arriscado. E você já sabe: quando amor e negócios se confundem, as coisas geralmente saem do controle.

STILL por Victor Jucá.

Catherine fala apenas francês, mas não fica incomunicável. Arriscando somente algumas palavras em português, ela é capaz de alugar um espaço e até comprar uma moto para Gil. Isso provavelmente acontece porque o francês, assim como o português, é uma língua latina. Entre as semelhanças das duas línguas, encontramos palavras cognatas, conjugações verbais e estrutura frasal, que permitem um intercâmbio de saberes lógico entre as duas línguas.

Nas cenas de beijo, optou-se pelo silêncio em detrimento da trilha sonora. As cenas de sexo também não são acompanhadas de qualquer música. Esses momentos eróticos corroboram com a ideia de que nós brasileiros somos um povo sensual e sexual – duas coisas que são semelhantes, mas não iguais.

Jean-Christophe Rufin foi adido cultural junto ao Consulado Francês em Pernambuco durante a década de 1990, experiência que o inspirou a escrever o livro e que justifica a escolha do filme ter sido rodado entre Olinda e Recife. Rufin, que também é médico e membro dos Médicos Sem Fronteira, foi embaixador da França no Senegal e na Gâmbia, além de presidente da ONG Ação Contra a Fome.

STILL por Victor Jucá.

Para adaptar o romance para as telas, juntou-se ao diretor Alex Carvalho o quarteto franco-brasileiro formado por Rita Toledo, Nelson Caldas Filho, Thomas Bidegain e Alix Delaporte. Sobre o trabalho de adaptação, Alex, que estreia na direção com “Salamandra”, relatou:

Tive alguns conflitos com o livro, principalmente pelo ponto de vista estar centrado nos olhos da protagonista europeia, mas vi muita força no choque entre as experiências dos personagens. Como vivi metade da minha vida fora do Brasil, com passagens pela África e Europa, sempre tive um grande interesse em diálogos multiculturais. Tentei fazer uma abordagem pessoal e tridimensional, considerando o público brasileiro e minhas próprias questões em relação à temática. Minha intenção era tocar mais a classe que explora do que a que normalmente é explorada. Nas diversas conversas que tive com a montadora do filme, Joana Collier, costumávamos chamar essa abordagem de ‘cortar a própria pele’.”

Maicon Rodrigues faz em “Salamandra” sua estreia em longas metragens, após um curta em 2015 e diversos papéis em novelas da Rede Globo. E ele já chega brilhando: pelo papel ganhou o Prêmio de Melhor Ator na edição de 2021 do FestCine Aruanda, onde o filme também saiu com o Prêmio do Público. Marina Foïs, por sua vez, é uma veterana do cinema francês, com mais de 90 trabalhos entre cinema e televisão. Ela já foi indicada cinco vezes ao César, o Oscar da França.

STILL por Victor Jucá.

Um francês que se apaixonou pelo Brasil foi o ator Vincent Cassel. O amor pelo país começou cedo, aos sete anos de idade, quando o pai, o cineasta Jean-Pierre Cassel, levou o pequeno Vincent para ver “Orfeu Negro”. Vincent aprendeu português e se interessou pela capoeira e pela música brasileira. Hoje ele tem uma casa no Rio e foi casado com uma brasileira, com quem teve uma filha.

Salamandra” é um filme pouco memorável com foco nos corpos, como o já mencionado corpo branquelo de Catherine exposto ao sol na praia no começo e ao final da projeção, de onde vem o título do filme. Mesmo com a barreira linguística, os corpos se entendem. Mas o cinema brasileiro é mais do que filmar corpos, algo que Alex Carvalho provavelmente esqueceu, mas é lição que deve ser aprendida para os trabalhos que virão. É isso que esperamos.

Salamandra

Salamandra
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Nota: 6/10 Bom
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