Danilo D'Alma e Thiago Soares_ROOTS_Crédito Mariana Vianna (3)
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Dança de rua e balé clássico no sensacional ROOTS

Roots, que tem direção de Renato Cruz e Ugo Alexandre, além de trilha sonora original assinada por Pedro Bernardes, dessa vez ficou apenas três dias em cartaz, na Caixa Cultural Rio de Janeiro, trazendo Thiago Soares e Danilo D’Alma para um diálogo interessantíssimo entre a dança de rua e o balé clássico. Thiago é o primeiro bailarino convidado do Royal Ballet de Londres e sua performance é a do balé clássico. Já Danilo é coreógrafo e integra a cena das danças de rua no Rio de Janeiro.

O espetáculo já esteve em cartaz no Rio em duas temporadas, desde 2016, voltando para esta curtíssima temporada no Centro do Rio, o que é bem interessante, por facilitar o acesso de pessoas oriundas de múltiplos lugares e faixas econômicas (por sua localização e pelo valor do ingresso).

Dança de rua e balé clássico no sensacional ROOTS | Dança | Revista Ambrosia

Antes de prosseguir nessa breve reflexão sobre Roots, é importante sinalizar a dificuldade que é escrever sobre dança, uma vez que pode remeter a múltiplos sentidos, produzidos pela cabeça de quem assiste e de quem escreve sobre. Esses sentidos podem coincidir ou não com aquilo que os idealizadores pensaram conscientemente ao elaborar o espetáculo. Mas a dificuldade não se deve somente a isso. Como leiga e sem domínio técnico da dança, tenho como instrumental léxico apenas aquele que uso como apreciadora da arte e escritora. Peço desculpas de antemão se o delírio for grande. Arrisco-me a fazer uso de algumas poucas palavras consensuais para compartilhar o que o belíssimo espetáculo me suscitou. Trata-se apenas de um apanhado de impressões movidas por afetos, emoções e encantamento.

Iniciamos com os dois bailarinos em suas coreografias paralelas, em ciclos de movimento que vão se repetindo, enquanto se dirigem para a frente do palco, a partir de seu fundo, encaixados em retângulos de luz separados, até que, ao final, se juntam e suas coreografias, antes aparentemente isoladas, se entrelaçam, se superpõem. Os movimentos iniciais paralelos já promovem certa captura e fascínio. Quando se juntam e se tornam complementares, é como se nesse começo houvesse um diálogo mais harmônico entre as diferentes pegadas dos artistas. É como também se eles pudessem trocar ideias no sentido corporal e performático do termo, acompanhados pela trilha sonora altamente instigante de Pedro Bernardes.

Dança de rua e balé clássico no sensacional ROOTS | Dança | Revista Ambrosia

Nos lances seguintes, a sensação provocada pelos movimentos e sua intercalação, somados à interação entre os artistas, era de um distanciamento maior. Como se houvesse uma disputa, em alguma medida, uma competição, ainda que leve. Em outros momentos, a sensação prevalente é a de que um tenta aprender com o outro, um tenta acompanhar o estilo do outro, sem tanta tranquilidade na empreitada.

Cada um tem sua assinatura muito própria nos ritmos e movimentos corporais. E essas assinaturas particulares são muito claras. Rapidamente percebemos, sem nenhuma leitura prévia sobre o espetáculo, que Danilo D’Alma traz os elementos da cultura de rua para sua dança, ao passo que Thiago Soares traz os elementos do balé clássico. No espetáculo, é como se Thiago fosse o bailarino e Danilo fosse o dançarino, no que consiste numa divisão inventada neste texto só para facilitar a comunicação. Eles se intercalam ou, quando estão juntos e em paralelo, mostram a assimetria entre as duas danças, um intervalo entre elas, a ausência de uma continuidade, o que não impossibilita a complementariedade, de algum modo perseguida pelos artistas. Mas há um atrito. Definitivamente, há um atrito entre o clássico e o popular. Seria possível sua integração, em qualquer esfera?

Dança de rua e balé clássico no sensacional ROOTS | Dança | Revista Ambrosia

Danilo D’Alma faz curiosíssimos movimentos corporais e, em alguns momentos, os movimentos parecem se quebrar no meio, como se fossem tilts que o corpo sofre, ou como se o corpo fosse um sistema que sofresse bugs súbitos e inescapáveis. O corpo de Danilo parece buscar o limite da possibilidade criativa e muscular que a física pode conceber. São movimentos que parecem ser bem originais, mesmo para quem já assistiu a espetáculos e apresentações de danças de rua nas ruas. Dá vontade de aprender a fazer o mesmo. Por outro lado, quando saltam juntos, Danilo cai no chão e se levanta rapidamente, como se não houvesse como saltar sem cair no chão, contrastando com a delicadeza de Thiago Soares em todos os saltos.

Perceber as nuances e discrepâncias entre os dois no palco é bem interessante, até que chegamos a um dos momentos finais, em que eles também alternam movimentos enquanto o outro segura o refletor para dirigir a iluminação ao colega em foco. A sensação de uma cooperação manchada pela competitividade fica ainda maior nesse momento, até o instante em que Thiago Soares solta o refletor na vez da performance de Danilo, e a luz fica balançando atrás do dançarino, iluminando pouco e de modo irregular o movimento que Danilo executa. Temos então que caçar com os olhos, através das réstias de luz movediças, o que o corpo em movimento do Danilo tem a nos dizer. Em uma palavra, sensacional.

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Na verdade, pode ser que haja um mix de diálogo, interação, integração, competição, disputa e ajuste mútuo entre as diferentes linguagens da dança. Uma brincadeira que torna Roots um despretensioso e inspirador espetáculo. E a simpatia de Thiago Soares e Danilo D’Alma, suas idas e vindas durante os agradecimentos, só dão mais gosto de poder assistir a essa bela obra. Que venham novas temporadas!

FICHA TÉCNICA

Elenco: Thiago Soares e Danilo D’Alma
Direção: Renato Cruz e Ugo Alexandre
Colaboração de criação: Pedro Cassiano
Trilha Sonora: Pedro Bernardes
Iluminação: Renato Machado
Figurino: Carla Kalache/Balletto
Realização: Araucária Agência Cultural
Diretor Geral: Miguel Colker
Diretor Financeiro e Administrativo: Rodrigo Wodraschka
Assistente Administrativo: Roberta Meziat
Relacionamento: José Menna Barreto e Felipe Dias
Produção: Aline Moschen, Juliana Santos e Paulo Dary
Coordenador de Design: Guilherme Telles
Design: Paulo Tavares e Romy Morgado
Coordenador de Comunicação: Irwin Fiuza
Comunicação: Rodrigo Santos
Fotos: Mariana Viana e Renato Mangolin

Cotação: Excepcional (4,5 de 5 estrelas)

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Publicado por Vivian Pizzinga

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