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Entrevista com a escritora Camila Passatuto

Camila Passatuto é autora do livro “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada (Penalux, 2017)”. Nasceu em São Paulo, em 1988 e começou a escrever aos 11 anos. Já participou de diversas antologias poéticas e revistas culturais com seus textos e poemas. Expõe sua escrita em blogs e redes sociais desde 2007. Confira a entrevista que a autor deu à Revista Ambrosia.

 1 – Como foi descobrir esta estrutura híbrida de narrar, que fica entre a prosa e a poesia (embora não ache prosa poética)? Como você maturou este tipo de voz tão singular?

Trato a poesia como elemento imaterial que pode estar ou não na prosa ou em um poema. Desde sempre estruturei minha poesia em poemas, até entender o quanto a estrutura do poema causa aversão, talvez por estar posicionada no inconsciente coletivo como algo elitista e de difícil compreensão.

Sempre quis escrever algo acessível, embora sempre caio no que chamam de hermético e singular. A estrutura da prosa quebra aquele gelo entre o leitor e a poesia, tento enganar o leitor, injetar na veia sem ele perceber.

Eu não descobri nada, ainda estou num quarto escuro dando murro em ponta de faca e eu adoro isso.

Não existe o maturar da voz, quando algo maturar na minha escrita é porque já apodreceu. O cru é o filho indecente da poesia e é nele que esmurro as palavras. Não existe arte com establishment. Temos que quebrar muita coisa, porque senão nos tornamos cópias ridículas de cânones, vermes que não sabem se comer para se sustentar. Entende?

2- Há elementos que parecem biográficos, mas pelo teor poetizado o texto adquiri uma liberdade poética muito forte não se prendendo a classificações. Fale-me um pouco desta liberdade de gêneros.

Primeiro: Compor personagens bons é difícil. Já escrevi um artigo sobre o nosso contexto de comunicação interpessoal através da internet e a composição de narradores em primeira pessoa, talvez no futuro os estudiosos de literatura, semiótica e comunicação possam entender e explicar melhor esse lance. Mas escrever em primeira pessoa traz o leitor para sua “timeline”, ele se torna (ou imagina se tornar) o primeiro “ouvinte” das confissões poéticas do narrador. E isso é deveras interessante.

Mas não é apenas sair escrevendo qualquer coisa em primeira pessoa e você vai ser o fodão, tem muita gente que faz isso e faz mal, talvez porque se prenda apenas nisso, o que empobrece a escrita.

O livro tem o teor biográfico talvez pelo fato que citei acima e também porque eu, como autora, tenho propriedade do que escrevo. Faço meus estudos da forma mais carnal e real, só para conseguir a melhor composição. Não vivi porque vivi, mas porque fiz com que vivesse.

Sobre a liberdade de gêneros… Sou uma escritora livre. Os artistas em geral devem ser livres e ousados para criarem e não só reproduzir formatos que já deram certo. Se fosse para eu ser uma nova Hilda, Conceição ou um Piva de saia, eu não escreveria. Até porque eles iriam me estapear a cara.

A literatura precisa de novas estruturas, composições, gêneros, vozes…

Quando eu começar a fazer o mais do mesmo, saio de cena.

Livro “TW: Para ler com a cabeça entre o poste e a calçada”

3 – Suas imagens obtidas no decorrer do texto são muito boas! Como elas surgiram no processo criativo?

Não acredito em processo criativo na literatura. Eu não creio em criatividade e poética como irmãs.

Criatividade é algo frio que você pode burlar, ser criativo e juntar jaca com gelatina de uva e fazer um doce bom. Deixo a criatividade para os profissionais que precisam dela para gerar renda.

Na literatura precisamos de vivência, essência poética, boa gramática para que possamos brincar e matá-la quando preciso e anos de escrita ruim. Sim. Não se faz boa literatura de um dia pro outro ou de um ano pro outro, temos que escrever muita coisa medíocre, treinar e pesar a mão.

As imagens são elementos para um processo de denúncias, talvez o texto chame muita atenção pelo estilo, mas o conteúdo é de contestação e denúncia e quando há revolta há beleza.

4 – Queria que você me falasse um pouco do seu fluxo, ligado ao seu processo imaginativo-fantasioso.

Meu fluxo é como o vômito. Sabe quando não dá para segurar e você vomita tudo até a bile amargar toda sua boca?

Eu abuso demais do meu corpo para que minha mente funcione no auge do desespero. Quando quero escrever sobre um afogamento, ou fico uns 10 dias sem tomar água e depois quase me afogo de tanto beber ou realmente provoco o afogamento, como já fiz uma vez. Isso causa o poder de propriedade do que escrevo e é aí que me pego a pensar, não sei o quanto imagino e fantasio, até porque antes de escrever eu já fiz com que meu corpo provasse de todas as dores e aflições para que eu possa estruturar aquela personagem, livro ou projeto.

Meu fluxo é o eterno desespero, preciso estar no limite de tudo, quase sem consciência, e é aí que a coisa começa a ser expelida, é aí que todo meu estudo de vivência começa a ser moldado à minha linguagem.

Não há planejamento, porque perderia toda a essência. Só há o desespero e as palavras para servir à poesia, é preciso destruir para estruturar.

Sou cavalo disso tudo, mero instrumento imoderado de algo que não me cabe ser dona. Sou um nada diante à poética que se forma entre meus dedos magros e tortos.

Publicado por Fernando Andrade

Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski.

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