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“Minha poesia é uma afirmação da minha terra”: vencedor do Melhor Livro no Jabuti fala sobre sua trajetória

“Quando ouvi meu nome, não acreditei, explodi e saí gritando. Isso para a premiação de poesia, quando avisaram que tinha levado também o prêmio de melhor livro do ano, foi algo sensacional, raramente a poesia é premiada assim no Jabuti, e eu por pouco não fui a São Paulo, estava sem dinheiro”. O relato é de um jovem simples de 27 anos, articulado e inteligente, que em muito lembra algumas características de Drummond. Sua poesia é um tributo constante ao cotidiano e às pequenas coisas da vida. Daqueles elementos que os poetas com altas pretensões ou egos imensos esquecem de retratar. O segredo da qualidade da sua poética reside exatamente em sua essência, “(a poesia) traz uma afirmação do meu lugar. Todo meu trabalho escrito, seja com a dramaturgia ou com a poesia tem como tema central o lugar de onde vim, o sertão, minha cidade – nem tão rural, agrícola, nem tão urbana -, tem essa ligação com a contemporaneidade e a cotidianidade de coisas pequenas. É onde minha obra passeia; ‘à cidade’ é uma afirmação dessa linguagem”.

De Carlos Drummond de Andrade, o garoto pacato, dentista no interior do Ceará e que se desdobra entre os atendimentos em duas cidades pequenas, – com menos de vinte mil habitantes cada – e a literatura, traz presente outra característica: a timidez. Mailson Furtado Viana, que também é dramaturgo, recebeu da Câmara Brasileira do Livro (CBL), os prêmios de melhor livro de poemas e melhor livro do ano na 60ª edição do Jabuti, a mais prestigiada premiação do meio editorial no Brasil. Fato raro um jovem e até então desconhecido autor romper a barreira das panelas literárias e emplacar um livro entre nomes fortes da literatura nacional. Mais raro por tratar-se de alguém cuja produção e divulgação sempre ficou centralizada no interior do Ceará.

“Tive dificuldades até de fazer minha literatura chegar à Fortaleza, sempre é assim com escritores do interior, temos a primeira barreira que é ser lido na capital do estado, depois ganhar outras regiões”, destacou o escritor.

E mais impressionante é que Mailson não teve apoio de nenhuma editora para editar o seu livro, ainda que no próprio Ceará existam casas como a Armazém da Cultura. Questionada em seu perfil em uma rede social por não ter publicado o agora poeta premiado, a Armazém respondeu de forma jocosa: “temos muitos talentos no Ceará”. Sem dúvida, existem aos montes em cidades pequenas como as que emprestam seu dia a dia para Mailson. Qualidade artística e literária existe, faltou, porém, às editoras, talento em reconhecer e cooptar o promissor autor antes que os pequenos jabutis, objetos dos sonhos de milhares de escritores, passassem a decorar a sua prateleira.

Em Mailson vemos surgir um escritor que preserva o lirismo poético sem abraçar-se à formulas mirabolantes de desconstrução da linguagem, ainda que a vítima da lâmina de certos poetas seja a própria poesia. Desprezado pelo mercado antes de tornar-se o nome da vez, Mailson agora vive uma nova realidade. “não sei ainda o que irei fazer, não deu tempo para pensar, são muitas mensagens e ligações, mas lá mesmo (na premiação) fui procurado por pessoas que queriam que eu levantasse a bandeira da autopublicação, assim como fui procurado por editoras. Depois que eu deitar minha cabeça na rede, no Ceará, eu penso”, valorizando o descanso na terra que é alimento para sua criação.

Seu livro vencedor, “à cidade”, é uma ode ao cotidiano do sertão onde as coisas passam devagar. Editado totalmente por Mailson, da escolha dos poemas, a ordem em que estariam no livro, projeto gráfico da capa, escolha do local onde seria impresso, o material demonstrou ao mercado a possibilidade de obras similares ganharem espaço. Para o escritor, a questão vai além. “Espero que (a premiação) possa abrir espaços para todo mundo, demonstrar a possibilidade de novas realidades não só para o mercado editorial, mas para os outros escritores e leitores também, que muitas vezes não leem quem não está em evidência da mídia. Que sirva para todos se enxergarem, fico feliz que tenha sido através de mim.”

A lista de influências e leituras do poeta traz igualmente a simplicidade e a escrita da terra, do lugar comum. Tem em Renato Pessoa, outro jovem autor radicado no Ceará, mas nascido em São Paulo, uma escrita de referência. “É um poeta muito bom e que tem essa temática social de forma muito presente”, indicando que a poesia tem um papel social e seria importante em um processo de unificação do país pós eleições e sob grande polarização. “A poesia daqui tem que chegar no Sul, a do Sudeste aqui, e assim por diante. Temos um Brasil desconhecido de muita gente.”

Na lista de leituras de Mailson estão autores como João Cabral de Mello Neto, Torquato Neto, Ferreira Gullar, Geraldo de Mello Mourão, Paulo Leminsk, Chacal e Ana Cristina César. Agora será ele a constar na lista de leitura de muitos outros poetas.

 

Escritor não esperava a premiação

O poeta e dramaturgo não esperava ser indicado entre os finalistas ao Prêmio Jabuti, quanto muito ganhar em duas categorias – o que lhe rendeu R$ 105 mil. “Estar na lista final já me abriu muitas portas, vendi muitos livros pelas redes sociais, a grande dificuldade de quem é independente é vender por conta própria o seu trabalho. Por conta de problemas financeiros eu quase nem viajei a São Paulo. Nem cogitava a hipótese de ganhar, muito menos como melhor livro do ano, coisa rara de acontecer com quem escreve poesia que é algo tão subvalorizado”

Convidado para eventos e atividades literárias em todo o Brasil, o autor, que trabalha das oito da manhã até as vinte horas da noite como dentista, e que não dedica um tempo específico para a poesia, “deixo ela vir, se vier, veio”, terá muito chão a percorrer.

Marcelo Adifa

Publicado por Marcelo Adifa

Marcelo Adifa é jornalista, roteirista e redator. Autor de Exílio (2015); A quem se fizer estrela (2016) e Saltar Vazio (2018), entre outros livros de jornalismo, poemas e romances.

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