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“A Família Addams” traz ótimos personagens em animação pouco inspirada

A criação mais famosa de Charles Addams, que mostrava uma família extremamente excêntrica com altas doses de humor negro, surgiu em 1930 na revista The New Yorker e, desde então, ganhou diversos fãs pelo mundo. O número de admiradores cresceu consideravelmente com uma série de TV lançada em 1964 que, além de divertir com os hábitos extravagantes (e meio macabros) dos personagens tinha um tema irresistível que faz muita gente estalar os dedos até hoje. Com o sucesso, foi criada uma série animada que, mesmo com apenas uma temporada exibida, ainda é bastante cultuada.

Nos anos 1990, duas produções hollywoodianas, um telefilme e novas séries de TV mantiveram a popularidade da obra de Addams em alta. Agora, finalmente, é lançada “A Família Addams” (“The Addams Family”, EUA, 2019) como animação em longa-metragem. O grande mérito do filme é trazer de volta os personagens com bom humor e uma fina ironia para esses tempos politicamente corretos que vivemos atualmente. É uma pena, no entanto, que a produção não alcança todo o seu potencial, tanto na parte técnica quanto nos temas que procura abordar.

Ambientada em Nova Jersey (terra natal de Addams), a trama mostra o bizarro dia a dia da família composta por Gomez, Morticia, seus filhos Wandinha e Feioso, além do Tio Chico e da Vovó Addams, o mordomo Tropeço e Coisa.

Todos estão às voltas do ritual do “Sabre Mazurka” de Feioso, em que o garoto passará a ser visto como homem e será formalmente apresentado a todos os parentes. Só que eles não contavam que uma de suas vizinhas, a estrela de TV Margô Agulheira, está com um plano para expulsá-los da comunidade em que vivem porque a mansão onde vivem (que fica no topo de um morro) atrapalha suas intenções de vender todas as casas da região. Paralelo a tudo isso, Wandinha começa a ter conflitos com sua identidade, o que gera alguns inconvenientes para Morticia.

O que torna “A Família Addams” um filme que merece ser conferido é o fato de que o público poderá saber as origens de Gomez e Morticia, como eles se uniram para montar sua família, como conheceram Tropeço, como surgiu a sua famosa música-tema, entre outras pessoas e elementos que fazem parte da mitologia dos Addams. Isso sem falar no design dos personagens e dos ambientes da sua mansão, inspiradas nos desenhos originais de Charles Addams, bastante inventivos.

Além disso, o roteiro assinado por Matt Lieberman, Pamela Pettler, Erica Rivinoja e um dos diretores, Conrad Vernon, tocam em temas interessantes, como o uso de fake news para difamar as pessoas ou a obrigação de que todos têm que ser de um mesmo padrão preestabelecido e quem não for deve ser condenado em praça pública. Tudo, é claro, levado com leveza e bom humor para agradar a todos os públicos.

No entanto, essa tentativa de tornar o filme abrangente para os diferentes tipos de espectadores acabou deixando tudo meio superficial, onde parece que o roteiro foi feito todo com o freio de mão puxado, sem se aprofundar em nada que a história procura criticar (como as fake news e o modo antisséptico que a vilã quer impor à comunidade), fazendo com que algumas piadas e situações fiquem sempre pela metade do caminho e, apesar de divertir, sempre  dá a impressão de que era possível fazer algo mais engraçado e mais envolvente. Dá para o gasto, mas muitos momentos da trama não geram mais do que um sorriso amarelo. Neste aspecto, os filmes estrelados por Anjelica Huston e Raul Julia eram bem mais interessantes.

Outra coisa que poderia ser melhor é a animação em si. A equipe comandada pelos diretores Conrad Vernon e Greg Tiernan entrega um trabalho apenas decente, porém um pouco duro para movimentar os personagens. Para um filme de cinema, precisava de um pouco mais de capricho para se diferenciar de produções feitas em computadores lançadas em vídeo ou exibidas direto para a TV. Embora algumas cenas como o treinamento que Gomez dá para o seu filho ou as que remetem a clássicos de terror como “Frankenstein” e “A Noite dos Mortos-Vivos” sejam divertidas e bem movimentadas, ainda assim não tiram a sensação de que dava para caprichar um pouco mais. Afinal, os Addams merecem.

Quem puder ver o filme legendado vai ter também o bônus de ouvir um senhor elenco fazendo as vozes dos protagonistas.  Afinal, não é todo o dia em que vemos atores e atrizes do quilate de Oscar Isaac (Gomez), Charlize Theron (Morticia), Chlöe Grace Moretz (Wandinha), Finn Wolfhard (Feioso), Bette Midler (Vovó Addams), Nick Kroll (Tio Chico), Allison Janney (Margô Agulheira) e até mesmo o cantor Snoop Dogg fazendo o icônico Primo It, que aliás mantém a tradição de ter um rapper envolvido na produção.

Afinal de contas, para quem não sabe (ou não lembra), MC Hammer cantou “Addams’ Groove” no filme de 1991 e o grupo Tag Team interpretou “Addams Family (Whoomp!)” para a continuação de 1993, uma versão de seu grande hit “Whoomp (There it is)”.

“A Família Addams” como animação é bem divertido e certamente vai ajudar a manter a popularidade da irônica criação de Charles Addams e certamente fará muita gente estalar os dedos ao ritmo da sua famosa música-tema ao sair do cinema. Mas merecia um resultado final bem melhor (imaginem um diretor como Tim Burton envolvido nesse projeto, por exemplo). Do jeito que ficou, dá para entreter, embora não seja memorável e certamente outras animações serão mais lembradas esse ano. Para quem não liga para nada disso, serve como um bom passatempo, bastante adequado para aquela família tradicional que você conhece. Ou não.

Cotação: Bom (3 de 5)

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Publicado por Célio Silva

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