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“A Lavanderia” se perde no didatismo e em histórias paralelas

Entre 2016 e 2018, por muitas vezes o termo “Panama Papers” se tornou um dos assuntos mais comentados no Twitter. O vazamento de dados sobre empresas de fachada chacoalhou o mundo todo, tendo desdobramentos políticos em diversos países, inclusive no Brasil, com a citação da empreiteira Odebrecht no esquema de subornos. Entender a origem e os impactos dos “Panama Papers” é algo complexo, mas o diretor Steven Soderbergh se prontificou a tentar esclarecer todo o escândalo através de seu filme “A Lavanderia”.

Ellen Martin (Meryl Streep) perde seu marido em um acidente de barco. Ela espera receber alguma compensação financeira da empresa que assegurava o barco, e com este dinheiro comprar um apartamento em Las Vegas, próximo do local onde ela conheceu o marido. Este sonho romântico é destruído quando um grupo russo compra o apartamento que Ellen queria e o dinheiro do seguro não é pago – mas, ao mesmo tempo em que essas pequenas tragédias acontecem, Ellen percebe que tudo pode estar ligado em uma ampla rede de corrupção.

Através de uma investigação que ela faz sozinha, Ellen chega à firma Mossack Fonseca, que abriu empresas de fachada para pessoas interessadas em evitar o pagamento de impostos. A partir daí, vemos algumas histórias de pessoas que usaram os serviços da Mossack Fonseca, como um membro do alto escalão do governo chinês e um empresário africano mulherengo.

Paralelamente, os donos desta empresa, Jürgen Mossack (Gary Oldman) e Ramón Fonseca (Antonio Banderas) resolvem contar “o lado deles da história” e mostrar que eles não fizeram nada de errado – afinal, há muitas outras empresas como a deles, que se aproveita de brechas na lei para cometer crimes fiscais.

O tom de “A Lavanderia” é extremamente didático – por vezes até demais. Ao mesmo tempo, a caracterização de Mossack e Fonseca por vezes parece caricata. O resultado é um filme que pretende denunciar atos de corrupção de maneira séria e que também faz troça com as figuras reais que foram encontradas por trás dos Panama Papers – não como responsáveis pelo vazamento dos dados, mas como facilitadores de atos milionários de corrupção.

Apresentando cinco lições em vinhetas animadas – que poderiam ser muito mais – o filme sofre de falta de foco. Se a ideia era criar empatia e compaixão com aqueles personagens que foram afetados pelo escândalo dos Panama Papers, o filme falhou miseravelmente.

Não pode haver bondade em quem escolhe sonegar impostos – e isso parecia ser unanimidade em Hollywood, onde muitos trabalhadores da indústria do entretenimento são contra Donald Trump, e pedem que ele torne público seu imposto de renda, pois suspeita-se que ele não pague impostos. Não, o objetivo não era justificar os atos dos sonegadores, mas sim nos deixar enfurecidos ao descobrirmos que milhões de empresas de fachada seguem aí, atuantes. E “A Lavanderia” falha miseravelmente também nesse objetivo.

Todos os envolvidos em “A Lavanderia” já tiveram dias melhores no cinema. Meryl Streep, que tem dois papéis no filme, é ainda assim desperdiçada, assim como Banderas e Oldman, que está caricato. O discurso final de Streep, quebrando a quarta parede e desfilando pelos bastidores, pretendia conclamar a população a lutar contra a corrupção, mas acaba sendo apenas uma vergonhosa celebração ao espírito norte-americano que, se duvidar, ainda poderá garantir uma indicação para Streep ao Globo de Ouro ou, talvez, até ao Oscar.

Não, “A Lavanderia” não é filme para Oscar. É filme combativo que não sabe como despertar a indignação de quem o vê – somente o tédio.

Cotação: Ruim (2 de 5)

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