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“A Vida Invisível” faz abordagem contundente sobre o silenciamento da mulher

“A Vida Invisível” não foge ao mandamento de Karim Aïnouz. Apesar de seu reconhecimento desde “Madame Satã”, o cearense não é um cineasta que cai em todos os gostos. Para muitos, sua abordagem resvala em escolhas artísticas que pouco acrescentam narrativamente, além de um apreço por chocar que divide a classe cinéfila. Já os admiradores ressaltam a voracidade com que ele narra suas histórias. A linguagem naturalista que marca os trabalhos do diretor traduz não só aos olhos e ouvidos, mas aos sentidos, toda a sofreguidão que se refestela em cada obra. O delicado tema da condição feminina  da sociedade tradicional brasileira não estaria em melhores mãos.

O cenário é o Rio de Janeiro da década de 1940. Mas poderia perfeitamente ser esse final de 2019. Eurídice (Carol Duarte) é uma jovem talentosa, porém bastante introvertida. Sua irmã mais velha Guida (Julia Stockler), tem um temperamento oposto, diverso do que se espera de uma moça no convívio social. As duas irmãs, extremamente unidas, vivem sob a égide de um rígido regime patriarcal, que vai determinar seus caminhos, embora distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento conveniente com Antenor (Gregório Duvivier).

"A Vida Invisível" faz abordagem contundente sobre o silenciamento da mulher | Filmes | Revista Ambrosia

A invisibilidade a que alude o título do filme é uma questão pertinente, que Karim faz questão de usar a sociedade patriarcal dos anos 50 como alegoria para discutir, não somente as relações abusivas e o machismo, mas uma violência ainda mais grave contra a mulher: seu silenciamento. E de quebra, aborda a incomunicabilidade que acomete a sociedade moderna, em plena era da informação. A adaptação de Karim junto com Murilo Hauser e Inés Bortagaray é acertada e contundente.O alicerce é fornecido pela matriz literária “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, lançada por Martha Batalha em 2016.

A belíssima fotografia de Hélène Louvart e a competente direção de arte de Rodrigo Martirena emolduram atuações memoráveis. Sem sair do tom, Julia Stockler carrega o peso dramático de Guida com cores fortes. Enquanto isso Carol Duarte imprime o minimalismo requerido ao drama silencioso da personagem. Já a pequena e comovente participação de Fernanda Montenegro pode ser considerada um dos maiores trunfos do filme. Ela confirma (e nos lembra) o porquê de ser exaltada como a maior dama das artes dramáticas no Brasil. Cada segundo seu em tela, além de deleite, é capaz de provocar lágrimas.

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Candidato do Brasil a uma vaga na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “A Vida Invisível” se mostra a escolha adequada. Com produção de Rodrigo Teixeira, o nome brasileiro mais respeitado do momento no mundo do cinema internacional, tem nessa credencial apenas o endosso da relevância artística que por si só bastaria para assegurar um lugar na cerimônia. Mas ainda que a estatueta não venha, faz-se mister que o longa seja visto e revisto, e o tema continue gerando debate.

Cotação: 4 de 5 (Ótimo)

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Publicado por Cesar Monteiro

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