Após assistir a Assalto à 13ª DP (Assault on Precinct 13, 1976) , o produtor de filmes independentes Irwin Yablans e o financista Moustapha Akkad convidaram o jovem John Carpenter para a direção de um filme sobre um assassino perseguidor de babás. Após trabalhar com sua então namorada Debra Hill num roteiro intitulado Os Assassinatos de Babás, Carpenter aceitou a sugestão de Yablans sobre ambientá-lo na noite de Halloween e usar a data para nomear o filme. O resultado de tal iniciativa, filmada em 21 dias, foi um filme capaz de influenciar todo um gênero por gerações.

A história começa na cidade de Haddonfield, Illinois. Na noite de Halloween de 1963, Judith Myers (Sandy Johnson) aproveita com o namorado a ausência dos pais, indiferente ao paradeiro de seu irmãozinho Michael (Will Sandin). A câmera os observa de fora, primeiro pela porta de entrada e janela lateral até o momento em que o casal resolve subir ao quarto. Então o espectador é conduzido à frente da casa, onde é possível observar a janela de Judith. A luz se apaga e o silêncio que marcava a narrativa até então é quebrado por uma nota aguda, a partir da qual somos acompanhados pelo som de um piano. Adentramos a casa pelos fundos, pegando uma grande faca na gaveta da cozinha e subindo.

A máscara de palhaço que o namorado de Judith derrubou na porta do quarto pouco antes de ir embora é apanhada e se ajusta ao rosto, restringindo nossa visão aos buracos dos olhos. Judith está se penteando, seminua em frente ao espelho, quando reconhece Michael, que a esfaqueia repetidamente. A câmera desce até a porta principal, saindo no exato momento em que um carro estaciona. São os Myers, pais de Judith e Michael, que encontram seu caçula vestido de palhaço com uma faca na mão. Michael Myers fez a primeira vítima e nós somos suas testemunhas, observando o fratricídio através de seus próprios olhos.

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Quinze anos se passaram. Na véspera do Halloween de 1978, o psiquiatra Sam Loomis (Donald Pleasence) e sua assistente Marion Chambers (Nancy Stephens) dirigem rumo ao Sanatório de Smith’s Grove, onde Michael Myers ficou internado nos últimos anos, para transferi-lo a um lugar em que possa ser julgado como adulto. Contudo, ao chegarem lá encontram os internos vagando livremente na chuva e o portão aberto. Aproveitando um descuido de Loomis e Chambers, Myers toma o carro e foge rumo a sua cidade natal. Uma corrida contra o tempo tem início na tentativa do psiquiatra em impedir que novos assassinatos ocorram.

Laurie Strode, Annie Brackett e Lynda van der Klok
Annie Brackett, Lynda van der Klok e Laurie Strode

Partindo desta premissa simples, Carpenter oferece paulatinamente os elementos que desembocarão na nova noite de assassinatos, sempre embalados pela emblemática trilha sonora composta pelo próprio diretor. Laurie Strode (Jamie Lee Curtis em seu primeiro papel), garota estudiosa, tímida e babá dedicada de Tommy Doyle (Brian Andrews), desde sua apresentação assume os ares de heroína em potencial, sendo a primeira a notar que um estranho as persegue. Já a futilidade de suas amigas Annie Brackett (Nancy Kyes) e Lynda van der Klok (P.J. Soles), assim como seu envolvimento com substâncias ilícitas e namorados problemáticos, as  evidencia como vítimas em potencial.

Sobre o assassino Michael Myers (Tony Moran), muito pouco se sabe. Após quinze anos acompanhando seu caso, Dr. Loomis se limita a relacioná-lo ao mal, realçar seus “olhos do diabo” e o perigo que representa, sem articular sequer uma vez alguma explicação sobre o motivo de Myers ter assassinado a irmã e persistir no comportamento homicida. Resta então acompanhar sua trajetória até a fatídica noite, do assassinato de um motorista de quem rouba as roupas ao furto de duas facas grandes, uma corda e uma máscara de Halloween numa loja de Haddonfield, e sua respiração ofegante.

Ao contrário da profusão de slashers lançados posteriomente nas décadas de 80 e 90, Halloween – A Noite do Horror apresenta uma baixa contagem de cadáveres. Além de sua irmã, o supracitado motorista e dois cachorros, Myers mata Annie, que deixa a pequenina Lindsey Wallace (Kyle Richards)halloween5 sob responsabilidade de Laurie para ir atrás do namorado encrenqueiro, e arruma seu corpo numa cama junto à lápide roubada de sua irmã Judith Myers. Ao aproveitarem a casa aparentemente vazia de Lindsey para transar, Lynda e seu namorado Bob (John Michael Graham) são mortos e seus corpos escondidos no mesmo cômodo em que Annie. As mortes seguem um padrão de estrangulamento seguido de esfaqueamento, quase num modus operandi, ao contrário de filmes posteriores do gênero em que a criatividade das mortes constitui um dos atrativos ao público.

Já o confronto entre Laurie e Michael chama atenção pelos instrumentos que ela utiliza para enfrentá-lo. Uma agulha de tricô no primeiro embate, enquanto no confronto dentro do armário ela tem sangue frio suficiente para desmontar um cabide e usá-lo como arma no rosto do assassino. Some isso ao fato que por duas vezes ele pega as facas usadas por Myers e as abandona e talvez possamos traçar um possível parentesco com MacGyver. Quando tudo parece perdido, ela é salva pelo Dr. Loomis, que após passar a maior parte do filme investigando a casa dos Myers na esperança que para lá ele voltasse, ouve os pedidos de socorro e chega no momento exato de evitar uma nova morte. Contudo, não consegue deter Michael de uma vez por todas.

Considerado um dos primeiros slashers modernos, Halloween apresenta alguns dos elementos que foram consagrados e utilizados a exaustão até se tornarem os mais manjados clichês, como a heroína virginal que se revela uma sobrevivente nata, vítimas sexualmente ativas e afeitas ao uso de álcool e substâncias ilícitas e o assassino mascarado virtualmente imortal. Também apresenta alguns detalhes curiosos, como é o caso dos filmes exibidos para as crianças na TV, clássicos do horror e da ficção científica, com destaque para O monstro do Ártico (The Thing, 1951), que três anos depois seria refilmado pelo diretor com o nome de O Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982).

Ao custo de US$ 320.000, Halloween – A Noite do Terror foi sucesso de crítica e público, arrecadando US$ 55.000.000 em bilheteria. Em 1979, foi indicado pela Academia de Filmes de Ficção Científica, Fantasia & Horror ao prêmio de melhor filme de horror, perdendo para o filme O Homem de Palha. (The Wicker Man, 1973) No mesmo ano, John Carpenter recebeu o prêmio da crítica no Festival do Filme Fantásticos de Avoriaz. Além disso, o filme foi selecionado pela Biblioteca do Congresso para preservação no Registro Nacional do Filme dos Estados Unidos como sendo “culturalmente, historicamente e esteticamente significante”. Após sete sequências, a franquia foi reiniciada em 2007 com o filme Halloween – O Início (Halloween, 2007), dirigido por Rob Zombie, cuja continuação foi lançada este ano nos Estados Unidos.