Festival do Rio: "M8 - Quando a Morte Socorre a Vida" e seu impacto social | Filmes | Revista Ambrosia
em , ,

Festival do Rio: “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida” e seu impacto social

O cinema do lugar de fala. Não que todo filme de temática social, dirigido por cineasta negro, tenha que necessariamente ser uma válvula discursiva. A questão é que cinema, para além do entretenimento, também é observação de seu tempo. Ou seja, a perspectiva é o seu grande discurso. O diretor Jeferson De sabe e vem marcando sua carreira sob esse prisma.

Um dos grandes destaques da seleção Première Brasil do Festival do Rio 2019, M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, é um de seus melhores filmes, talvez desde sua estreia no ótimo Bróder. Baseado no livro homônimo de Salomão Polakiewicz, acompanhamos o estudante de medicina Maurício (Juan Paiva) que sente alguma conexão sobrenatural com um corpo negro (catalogado como M8) estudado em sua universidade, na aula de anatomia.

Festival do Rio: "M8 - Quando a Morte Socorre a Vida" e seu impacto social | Filmes | Revista Ambrosia

Sensível às questões espirituais dada sua ligação com religiões de matrizes africanas, percebe que a realidade de sua condição como indivíduo negro e cotista num curso de medicina, diz muito sobre seu lugar na sociedade e na consequência disso até para a subestimação daquele cadáver negro.

Sob a urgência da injustiça social, o roteiro de De, junto com Felipe Sholl, se vale do misticismo da história original para fazer um traçado bem arguto sobre os ruídos sociais que representam o cotidiano de Maurício. E está na figura materna de Cida, uma Mariana Nunes numa força e plenitude cênicas excepcionais, o grande impacto dramático do filme. O instinto materno e de sobrevivência se humanizam nessa relação e no sentido do filme em si.

Festival do Rio: "M8 - Quando a Morte Socorre a Vida" e seu impacto social | Filmes | Revista Ambrosia

A direção de fotografia é de Cristiano Conceição, que trabalha a luz para um realce mais preciso na pele negra, porém, parece restringir seu preciosismo a isso. A fotografia como um todo é insípida. Outro problema está na montagem, que resulta atrapalhada. M8 – Quando a Morte Socorre a Vida por sua força como cinema, e até pelo que tange exclusivamente ao trabalho do diretor, merecia uma montagem e fotografia mais inspirados.

Jeferson é elegante e inteligente nos signos que seu filme precisa para provocar. A dimensão alcançada é efetiva e catártica. A maneira que ele usa para dar seu recado, no final do filme, após alguns créditos, e através do talento de Mariana, é simplesmente arrepiante. Ele já refutou que seja uma espécie de Spike Lee dos trópicos. Mas é inegável que seus cinemas conversam. E reverberam. Ou simplesmente têm a maestria de fazer do discurso, um ótimo cinema.

Cotação: Excelente (4 de 5 estrelas)

Opiniões

Participe com sua opinião!

Carregando

0