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Festival do Rio: “Nômade, seguindo os passos de Bruce Chatwyn” traz um espelhamento entre vida e amizade de Herzog e o antropólogo

Nesta edição do Festival do Rio, o sempre ativo diretor Werner Herzog foi representado por dois de seus mais recentes trabalhos: “Nômade, seguindo os passos de Bruce Chatwyn” e “Family Romance, LLC”, sendo o primeiro documental e o segundo com uma linguagem híbrida entre o documental e a ficção.

“Nômade, …” tem como foco principal a vida de Bruce Chatwyn, um antropólogo inglês que, assim como Herzog, partilhava uma paixão profunda pelas viagens, pela descoberta do outro, pelo nomadismo, pela caminhada e pelas histórias garimpadas em suas experiências errantes. Para resumir o espírito do filme em uma de suas falas mais emblemáticas: “The world reveals itself to those who travel on foot” – “O mundo se revela para aqueles que andam a pé”.

Chatwyn foi um prolífero escritor-viajante, estudioso dos últimos vestígios dos nômades modernos, dos cantos indígenas e tantas outras. Seu trabalho é referência para antropólogos, mochileiros e curiosos. 

Mais uma vez, assim como em outros documentários de sua obra, Herzog consegue aproveitar pra criar sub-narrativas que, enredadas, acabam por revelar vários temas interligados sem nunca perder de vista seu assunto principal. Ao falar de seu amigo, o diretor faz também uma análise de suas próprias viagens, para os mesmos locais, porém em momentos diferentes, relembra quando adaptou um dos livros de Chatwyn para as telas do cinema e fala ainda da importância simbólica da mochila que herdou do mesmo.

A linguagem é simples: entrevistas, imagens de arquivo, reencontros com personagens. Estamos já habituados ao modo de narrar do diretor. Sua voz marcante chega sorrateira pra pautar histórias e sentimentos, sempre em primeira pessoa, sempre vindo de alguém que está envolvido, o que, para mim, enriquece nossa experiência enquanto espectadores e torna seu trabalho ainda mais autêntico. 

O filme é estruturado por capítulos, como se fosse um livro biográfico. Aos poucos, Herzog vai nos revelando as camadas da história de Bruce, tangenciando suas descobertas/conquistas e sua intimidade, chegando aos detalhes de sua morte precoce aos 49 anos, em 1989.

Seja por modos similares de pensar e vivenciar as experiências, seja por terem estado nos mesmos lugares em épocas diferentes, a vida de um espelha a do outro, ambas insaciáveis e inquietas. 

“Nômade…” é uma homenagem a Bruce, um relicário documental, uma declaração de amor de um amigo querido e admirador que, apesar de possuir um tom claramente parcial e emotivo, nunca se deixa cair em pieguismos narrativos baratos.

Em um de seus filmes mais pessoais, ao examinar os passos de seu amigo, Herzog se abre como talvez nunca antes em sua filmografia, nos presenteando com um relato de admiração e respeito sobre uma vida rica e inspiradora.

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