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Festival do Rio: “O que arde”, entre ficção lírica e realidade trágica

Quando estava olhando a programação do Festival do Rio, me chamou atenção o trailer deste filme, realizado na Galícia e dirigido pelo diretor Oliver Laxe. Intuí, acertadamente, que seria um filme silencioso e pautado pela simplicidade.

Os primeiros planos já nos indicam que o elemento do mistério será importante para a narrativa. Vemos os topos das árvores despontando no meio da escuridão da noite, balançando numa dança não coreografada, iluminados por alguma luz não justificável, até que vemos máquinas em suas bases, arrancando, atravessando e causando todo esse rebuliço.

Logo em seguida, um papel passado de mão em mão, coberto por vozes, nos enuncia a soltura de Amador, nosso protagonista, quem passou dois anos preso por ter iniciado um fogo que quase devastou a floresta local. Amador é recebido por sua mãe, dona Benedicta, uma senhorinha pequenina no alto de seus 80 anos que segue na rotina da pequena casa-fazenda e no cuidado dos animais.

Numa entrevista, o diretor fala sobre alguns dos “assuntos” que o inspiraram: pessoas simples e fortes que parecem não ter as ferramentas para viver no mundo atual, outsiders, deslocados. Interessava-lhe também trazer pra superfície fílmica a fragilidade e a sensibilidade dsse filho e dessa mãe.

“A vida é um sacrifício: nos traz sofrimentos, mas nos torna sagrados também”.

O filme segue então em seu passo lento, da observação das interações quase mudas entre filho e mãe durante refeições, eventualmente interrompida por alguma observação sobre a fauna local. Em meio ao silêncio, cada pequena fala ganha ares de sabedoria e de chave para a compreensão do contexto das personagens. Numa delas, mais significativas, Amador fala sobre as raízes das árvores eucalyptus, responsáveis pelos incêndios que devastam frequentemente áreas verdes em Portugal e Espanha. Fala sobre o fato delas serem profundas e sufocarem tudo que há próximo a elas, ao que sua mãe responde: se fazem sofrer é porque sofrem também.

Todos na cidade tratam Amador entre o cuidado para com um louco e o receio para com um piromaníaco. Isolado, as breves interações com Helena, uma veterinária local que não sabe ainda sobre seu passado, ganham ares românticos e poéticos, sendo a principal delas quando ambos estão no carro e Helena deixa uma canção de Leonard Cohen, Suzanne, ecoar dentro dos vazios da conversa.

Meio ficção, meio documental, Laxe convidou não atores para encenarem sua história e esperou os incêndios reais acontecerem para filmá-los. A realidade dura do fogo se mescla com um certo lirismo no qual estávamos envolvidos até ali e ainda serve ao propósito de atiçar mais mistério em relação ao que seria verdade ou não, intencional ou não.

No mais, o filme trata de uma realidade em desaparecimento, da invasão de uma certa modernidade e da vida no campo, que não se reduz a uma visão romantizada, ainda que seja apresentada com um tom bucólico.

Em uma frase, “O que arde” é um filme interessante que trata tanto sobre assuntos jornaleiros/trágicos como de assuntos íntimos/banais, através de uma narrativa misteriosa que usa o tempo lento e o silêncio de maneira coerente e representativa de sua história.

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