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Festival do Rio: “Pacificado” debate com sensibilidade a ineficácia das políticas sociais

Em 2010, as forças de segurança do Rio de Janeiro, visando “limpar” a violência da cidade, empreenderam uma operação de ocupações das favelas cariocas expulsando (ou monitorando) o tráfico de drogas. Isso não abrangeu a todas as comunidades, mas sobretudo aquelas localizadas na zona sul, área nobre da região metropolitana. O longa “Pacificado” procura mostrar o cotidiano dessas favelas pacificadas – classificação dada aos territórios com UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) instalada – e como o plano do governo visava apenas empurrar a sujeira para debaixo do tapete às vésperas dos grandes eventos esportivos que a cidade sediou nessa década.

Esse cotidiano de uma típica favela carioca nos é mostrado sobre o ponto de vista da menina Tati (Cassia Gil), uma introspectiva garota de 13 anos, que deseja conhecer seu pai, Jaca (Bukassa Kabengele), que foi preso antes de ela nascer e acaba libertado da prisão. Enquanto a Polícia Pacificadora luta para manter a ocupação nas favelas do Rio, Tati e Jaca enfrentam seus dramas e conflitos pessoais que envolvem a mãe da menina, Andrea (Débora Nascimento) e o sucessor de Jaca no tráfico, Nelson (José Loreto).

Pacificado é um termo que pode perfeitamente interpretado como domesticado. Essa era a verdadeira função do projeto do governo, tornar as comunidades carentes silenciosas, invisíveis, como o poder público sempre quis, desde que as ocupações se tornaram cidades dentro da cidade. O que o diretor americano Paxton Winters propõe não é um “favela movie”, como muitos esperariam. Aqui não há glamourização da pobreza ressaltada por cores quentes e nem violência estilizada, com edição mirabolante. Winters optou pelo documental, não pelo espetáculo.

O diretor viveu por um tempo no Morro dos Prazeres e isso conferiu a ele autoridade para desenvolver uma trama que capta a realidade dos morros cariocas nos seus minuciosos detalhes. De início, a favela é o personagem principal e vai gradualmente cedendo esse posto aos personagens, mas não deixa de ter seu protagonismo. A bela fotografia e a sensibilidade na direção de elenco (que inclui os globais Débora e Loreto, além da consagrada Lea Garcia) ajudam na imersão pretendida naquele universo naturalista – é inevitável remeter ao romance “O Cortiço” de Aluísio Azevedo.

Produzido pelo contundente Darren Aronofsky (de “Réquiem Para um Sonho” e “Mãe”), “Pacificado” reflete sobre a relevante questão de como os planos das autoridades no programa das UPPs passava longe de levar uma vida mais digna para aquelas pessoas. Um protesto sobre um tema contemporâneo que merece continuar nas mesas de debate. Causa curiosidade e ao mesmo tempo um certo embaraço que tenha sido levantado por um estrangeiro.

Cotação: Bom (3,5 de 5)

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Maestria

Publicado por Cesar Monteiro

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