em , ,

Festival do Rio: “Tommaso” é uma sinédoque da crise da meia idade

Em “Tommaso”, o personagem título, vivido por Willem Dafoe está em crise. Crise de meia idade, crise criativa, crise no relacionamento com uma moça muito mais jovem. E, sobretudo, crise existencial. A questão não é novidade no cinema, mas é sempre um tema irresistível para qualquer cineasta em busca de reflexão.

O novo longa de Abel Ferrara acompanha a história de um artista americano na casa dos sessenta anos vivendo em Roma com sua esposa do leste europeu Nikki (Cristina Chiriac) e sua filha de três anos Deedee (Anna Ferrara). Tommaso é pai dedicado, procura ser um bom marido, apesar de um ou outro tropeço. Sua dedicação às criações artísticas o colocam no dilema entre se dedicar à família ou inteiramente a uma utópica obra-prima que não concluiu. Esse conflito é a plataforma para uma viagem em meio a fantasmas do passado que o forçam a encarar a vida que escolheu e os frutos de sua arte. Uma sinédoque da crise do homem na maturidade, ciente que tem menos do que todo o tempo do mundo.

Festival do Rio: "Tommaso" é uma sinédoque da crise da meia idade | Filmes | Revista Ambrosia

Ferrara convocou o amigo Dafoe para interpretar seu alter-ego. O filme já foi até chamado de “Roma” do cineasta, visto que é um filme autobiográfico. Inclusive Cristina e Anna são a esposa e a filha de Ferrara na vida real. Daí, a câmera acaba sendo um divã do cineasta, e ela o faz com sofisticação, com movimentos circulares, investigativos, enveredando pelo documental em alguns momentos, dando a quem assiste o papel do analista.

O subjetivo e abstrato pontuam a narrativa, em que, ao menor descuido, é possível se confundir entre o tangível e o sonho. Esse recurso vai sendo usado mais intensamente no terço final, quando temos clara coadunação com Pasolini, Fellini e uma inevitável intertextualidade com “A Última Tentação de Cristo” de Martin Scorsese – depreendida, mas não se tem certeza se fora de fato pretendida. “Tommaso” mostra um Abel Ferrara aparentando desorientação, mas o fato é que se mostra vigoroso e mais a serviço do cinema do que nunca.

Cotação: Ótimo (4 estrelas de 5)

Participe com sua opinião!