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“O Irlandês” – uma epopéia de Martin Scorcese

Martin Scorcese talvez seja a grande instituição cinematográfica norte americana. E isso se traduz em peso e genialidade. Por vezes ele sobrepõe-se a isso, por vezes sucumbe, e as vezes fica no meio termo. Por mais brilhante que seu primeiro filme bancado pela Netflix, O Irlandês seja, carrega em si essa dualidade de seu criador.

Voltando a sua costumeira investigação sobre o microcosmo gângster que ajudou a formar a cidade de New York em sua controvérsia, o filme, estrelado por Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci, acompanha a escalada pelo submundo do crime de Frank Sheeran (De Niro), que vai virando o braço direito da máfia, sobretudo após seu encontro seminal com Jimmy Hoffa (Pacino), que vem a ser líder de sindicato e o maior nome do crime organizado na época.

Trata-se de uma história real (o caso Hoffa é muito conhecido nos EUA e até hoje pairam especulações sobre seu desaparecimento em 1972 nunca solucionado. O Irlandês dá sua versão do fato e é o grande impacto de seu final.

De Niro e Al Pacino dão o show de sempre, mostrando nuances poucos exploradas em suas últimas interpretações. Já Joe Pesci, que havia se aposentado da atuação, comprova porque sua presença nos cinemas faz tanta falta. Está irrepreensível.

A narrativa vai se adensando ao longo de suas três horas e meia e por mais que Scorcese conduza com a firmeza de sua experiência, inclusive dosando tensão e humor organicamente nesse universo que é tão cínico e inflamado (um trabalho de roteiro excepcional), não dá para dizer que essa duração excessiva não é sentida.

E se a história ainda peca por ignorar personagens chaves, sobretudo os femininos (Anna Paquin é claramente desperdiçada), fica ainda mais evidente o quanto a narrativa se estende para além do necessário, até porque a força dos personagens construídos pelo diretor já tinham a dimensão que a história precisa.

Para além de sua genialidade, o peso sobre o filme que tem em mãos fica muito evidente. Para além desse pequeno grande problema, o filme é a comprovação da potência que ainda é a sina criativa do cineasta.

Cotação: Fantástico (4,5 de 5 estrelas)

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