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O Rei traz drama medieval cheio de intrigas

A história está cheia de batalhas épicas. Por causa disso, o cinema tem batalhas de sobra para escolher quando quer fazer um filme épico. Mas nenhum filme se sustenta sem bons personagens e uma boa história, certo? Por isso o filme O Rei, da Netflix, bebe na fonte de Shakespeare para contar sua história, já contada por outros filmes, mas mesmo assim digna de se rever.

O príncipe Henrique, ou melhor, Hal (Timothée Chalamet) não quer ser rei. Seu pai também não quer que ele governe a Inglaterra, por isso escolhe o filho mais novo, Tomás (Dean-Charles Chapman) para sucedê-lo no trono. A vontade do rei, entretanto, não se concretiza, pois Tomás morre em batalha e cabe a Hal, boêmio e pacifista, assumir o trono inglês.

O principal desejo de Hal é acabar com um conflito entre Inglaterra e França que já dura anos, e muito o aborrece: devido a questões de sucessão, havia uma disputa entre os reis da Inglaterra e da França, sendo que ambos queriam anexar o outro país por direito. Hal quer resolver essa questão sem derramamento de sangue, mas uma tentativa de assassinato o leva a aceitar a guerra contra o Delfim da França (Robert Pattinson), levando com seu exército o beberrão e brilhante amigo John Falstaff (Joel Edgerton) até os campos franceses, onde ocorre a Batalha de Agincourt em 1415.

A história da grande batalha do Rei Henrique V já foi contada diversas vezes, inclusive por William Shakespeare na peça de mesmo nome. Tal peça deu origem ao filme Henrique V (1944), dirigido, produzido e protagonizado por Laurence Olivier. Tal filme, por utilizar a tecnologia do processo Technicolor, que era novidade na Inglaterra na época, tem cores muito vivas e vibrantes, muito diferente de O Rei, que é mais sóbrio em sua paleta de cores e que nos traz uma Idade Média quase imersa em trevas.

Falstaff também é um personagem conhecido nos livros e no cinema. Uma obra importante focada no personagem é Badaladas à Meia-Noite (1965), em que Orson Welles, também diretor do filme, interpreta John Falstaff. O próprio Welles considerava Falstaff a maior criação de Shakespeare, e tinha Badaladas à Meia-Noite como o melhor filme de sua carreira. Um fracasso de crítica e público na estreia, hoje Badaladas à Meia-Noite é considerado um dos melhores, quando não o melhor, trabalhos de Welles.


Timothée Chalamet está bem como um rei que precisa mudar o rumo planejado e fazer sacrifícios pelo caminho. Robert Pattinson traz um sotaque inglês irritante, mas explicável: além de ser correto para um francês que aprende inglês em pleno século XV, a ideia do sotaque forte partiu do diretor David Michôd, que queria que o sotaque fosse mais um elemento que o Delfim usaria para insultar o jovem rei Henrique V.

Além de coadjuvante importante, Joel Edgerton é também roteirista e produtor de O Rei. A amizade entre Falstaff e o rei não é tão forte quanto em Badaladas à Meia-Noite, mas é significativa e importante para o roteiro. A beleza das atuações está nos pequenos gestos, menos para Robert Pattinson, cujo personagem tinha de ser exuberante.

O cuidado com o som e os efeitos sonoros é o que há de mais primoroso em O Rei. Quando os dois exércitos finalmente se enfrentam corpo a corpo, temos a sensação de estar lá ao ouvirmos o metal das armaduras se chocando e o som abafado dos golpes de espada, como se estivéssemos também com elmos tapando nossos ouvidos.

Diz-se que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, e também que o poder corrompe. A primeira parte é verdadeira para o rei Henrique V, mas a segunda não. Com o poder, Henrique V conheceu sua ira interna, foi capaz de coisas que jamais pensou que ousaria fazer e descobriu como dói ser traído e manipulado. Nesse sentido, O Rei pode até ser um filme de coming of age muito diferente do que estamos acostumados, mas é ao falar sobre amizade e lealdade que o filme realmente se destaca.

Cotação: Bom (3 de 5 estrelas)

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Publicado por Letícia Magalhães

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