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"Quando Eu Era Vivo" multiplica sinas para nosso viciado cinema

O amadurecimento do cinema brasileiro pode ser apontado pela cada vez mais irrestrita busca pela diversidade de temática e de gêneros nos lançamentos recentes. Ainda que tenhamos que engolir a comédia recorrente como estímulo monetário para uma indústria inexistente, exemplos como “Dois Coelhos“, Entre Nós” e, agora, “Quando Eu Era Vivo“, pode nos animar para caminhos mais vastos dessa personalização. Com direção aguda de Marco Dutra (após um primeiro trabalho de muita repercussão com “Trabalhar Cansa“, dirigido com Juliana Rojas), o filme é um terror psicológico baseado nos devaneios literários de Lourenço Mutarelli  mais especificamente no seu livro “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa“. A trama, cheia de contornos realisticamente macabros, acompanha José Matos Jr. (Marat Descartes), um homem que desde que aparece pela primeira vez no vídeo, já demonstra um ar sinistro e de constante inadequação. Ele volta para casa depois de anos morando com sua ex-mulher e é recebido pelo pai (Antonio Fagundes), no apartamento onde viveu desde a infância. Aos poucos vamos descobrindo o passado dessa família que por anos escondeu segredos ligados ao ocultismo, e sua relação com certos descaminhos de seus integrantes.

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Dutra tem uma espécie de detalhamento narrativo que muito contribui para o clima que um filme desses necessita. Por isso, encontra bastante legitimidade em seus sustos, mesmo quando resvala de leve nos clichês dessa tentativa. O roteiro ampara bem o clima buscado, ainda que tenha problemas em sua conclusão – principalmente quando confronta seus (ótimos) coadjuvantes com o plot de seu protagonista. Marat é um ator trafegando pela delicada condução de seu personagem e se sai muito bem, conseguindo encontrar, na esquizofrenia, a composição perfeita para as transformações de seu papel. Fagundes, que deveria fazer mais cinema, diverte e comove, e Sandy, que faz a “estranha” que aluga um quarto do apartamento e injeta um pouco de vida àquelas relações, consegue ser Sandy e Bruna ao mesmo tempo, e ainda manter a consonância com o todo ao qual está atrelada. E a dupla de coadjuvantes, Gilda Nomacce e Tuna Dwek, em pequenos, mas importantes papeis, só potencializam a gama de personagens sobre os quais o roteiro se debruça para ser algo mais do que um filme de sustos fáceis. Talvez o seu desfecho necessitasse de mais algum tratamento, entretanto, “Quando Eu Era Vivo” é animador para além do que se propõe: ser um cinema fora do circuito “Comédia-Favela”.

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