“Rainha de Copas” e sua inteligência desconstrução moral | Filmes | Revista Ambrosia
em ,

“Rainha de Copas” e sua inteligência desconstrução moral

O cinema dinamarquês tem obsessão por desconstruir a moral como conhecemos. Rainha de Copas leva isso ao paroxismo ao se debruçar com elegância e crueza sobre a história de Anne (a maravilhosa Trine Dyrholm), uma advogada especializada em casos de abuso infanto-juvenil, que acaba se envolvendo com o filho menor de idade de seu atual marido.

Dirigido com cuidado milimétrico por May eu-Toukhy o filme perpassa a vida ordinária de Anne, seu casamento protocolar e suas duas filhas. Sua aproximação e envolvimento (carnal) com o enteado Gustav (Gustav Lindh) é construída com calma e sutileza, mesmo que as cenas de sexo (gráficas) exprimam o tesão (até então) reprimido de ambos. Mas o filme não tem esse nome à toa. Anne, em nome da razão, embola a questão colérica da moral com a complexidade que há por trás de estruturas de poder num relacionamento íntimo. O filme fala até mais disso que sobre a gravidade dessa infidelidade.

“Rainha de Copas” e sua inteligência desconstrução moral | Filmes | Revista Ambrosia

Há uma confusão na assimilação do espectador para com os personagens. Torcer por quem, quando ao longo da narrativa uma inversão moral se abre sobre o desenvolvimento dramáticos dos protagonistas? May é de uma competência absurda na condução desses matizes. É salutar o quão cruel e humano seu filme pode ser. A fotografia, gélida, ajuda na condução dos fatos e o uso da trilha sonora pontua as perspectivas dos personagens, não as induz.

Rainha de Copas é um filme para se degustar, sem a necessidade de compreensão dos atos. O importante é a observação de como a moral é trabalhada ou relativizada por um cinema que consegue sempre dar uma nova medida para enxergá-la.

Cotação: Muito Bom

Deixe sua opinião

Avatar

Publicação Renan de Andrade