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Os destaques do Rencontres d’Arles 2019, um dos maiores festivais de fotografia do mundo

Todos os anos, de julho à setembro, a pequena cidade de Arles, no sul da França, famosa por ter sido o local inspirador do período mais criativo e reconhecido nas pinturas de Vincent Van Gogh, com seus girassóis e céus estrelados, organiza um dos mais prestigiados festivais de Fotografia da França e do mundo: Les Rencontres d’Arles. 

Berço de uma das melhores escolas de fotografia, a ENSP (École Nationale Supérieure de la Photographie), o Festival prestigia não apenas fotógrafos já estabelecidos e o estilo clássico fotojornalístico, mas é uma plataforma para promover novas descobertas, artistas emergentes e diferentes tipos de fotografia, pertencentes a um pensamento contemporâneo mais experimental, que mescla o documental e o artístico. 

Neste ano, 2019, o Festival comemora 50 anos desde sua primeira edição e, com isso, oferece 50 exibições oficiais. Além destas 50 exibições, há também o Voies Off. O Voies Off é composto por dois elementos: 

-fotógrafos e artistas que se espalham por diversos espaços e casas e galerias da cidade para expor seus próprios trabalhos 

-projeções, de excelente qualidade numa enorme tela, de projetos que foram enviados e selecionados por um júri. Geralmente, essa segunda categoria exibe belíssimas séries de imagens poéticas que provocam o olhar “habituado” para enxergar de outro modo as possíveis maneiras de contar uma história ou promover uma sensação.

Eu estive lá entre os dias 1 e 7 de julho, durante a semana de abertura, na qual, para além destas exibições, há também atividades extras, leituras de portfolio, visitas guiadas pelos próprios artistas, venda de livros, festas, diversos lambe-lambe espalhados e uma cidade lotada de pessoas andando com suas câmeras a tira colo. Em soma, Arles respira à arte e fotografia.

Apesar do calor que chegava à 41 graus, consegui unir minhas energias pra poder comparecer a algo em torno de 30 exibições. A atmosfera este ano, talvez devido ao marco de celebração dos 50 anos, refletia a história do festival e o seu acúmulo de experiências, e foi bastante centrado em exposições coletivas e compilações temáticas.

Algumas destas exibições pautadas por um conjunto de obras foram:

Les Murs des pouvoirs – trabalhos que refletem sobre os diversos tipos de barreiras que vêm fazendo parte de nossa história até chegar à atualidade, sejam elas físicas e visualmente representadas por muros, como também abstratas, como as divisões entre classes, os problemas de imigração, preconceitos, etc.

Corps Impatients – recebeu imagens feitas por 16 fotógrafos da Alemanha do leste, entre 1980 e 1989, para pôr em contraste o modo de vida autoritário e restrito com a liberdade interpessoal exposta nestas imagens através dos corpos.

Esta exposição dá o tom daquilo que também está muito recorrente este ano: a chegada à superfície de imagens pessoais, quase como um diário revelado, da contra cultura e dos representantes que fogem à normatividade, reforçando um tipo de fotografia não mais centrado no sentido humanista e documental tradicional, mas aberto a uma linguagem híbrida e subjetiva.

La Movida – exibe o trabalhos de 4 fotógrafos – Alberto García-Alix (1956), Ouka Leele (1957), Pablo Pérez-Minguez (1946-2012), Miguel Trillo (1953) – que fizeram parte de um dos movimentos mais singulares e espontâneos da história da cultura espanhola, cheia de exageros na maneira de se vestir e se pentear, muita cor e muita atitude.

La Saga des Inventions – esta peculiar, porém delicada exposição, exibe imagens de arquivo que se inserem num momento específico da história francesa, quando, entre 1915 e 1938, o Estado investiu muito em promover e reconhecer a pesquisa industrial e científica. O acervo exibido gira em torno das invenções e inovações tecnológicas da época através de imagens descritivas ou, até mesmo, performáticas, nas quais os inventores demonstram o processo de utilização de seus aparatos. Quase todas seguem um padrão básico de enquadramento e fundo cinza neutro, dando um ar quase escultórico à suas criações. Algumas imagens geram estranhamento, outras são interessantes por mostrar homens operando objetos comumente atribuídos ao uso feminino e outras nos transportam a cenários possíveis futuristas.

Home Sweet Home – reúne trabalhos de 30 artistas, desde 1970 até hoje, para trazer uma evolução visual em torno da representação do lar britânico, colocando em evidência a capacidade destas imagens de trazerem à tona questões familiares ou reveladoras de um determinado período histórico e socio-cultural.

Modernité des Passions – exibidas dentro do mais recém inaugurado prédio da ENSP (École Nationale Supérieure de la Photographie), consiste em uma exposição de fotografias da coleção pessoal de agnes b. curada pelos próprios alunos da Escola. No mesmo prédio, num andar abaixo, há também uma sala com o trabalho de 4 alunos/ex-alunos que fizeram parte de uma residência artística dentro do universo médico-científico, tendo desenvolvido trabalhos que exploram essa dicotomia entre ciência e arte, entre o preciso e o impreciso.

E agora, aproveito pra ressaltar algumas das exposições mais marcantes desta edição:

Libuše Jarcovjáková – Evokativ

Libuše Jarcovjáková é como a Nan Goldin da antiga Tchecoslováquia. A igreja Sainte-Anne exibe fotografias do acervo pessoal da artista, tiradas entre 1970 e 1989, mais uma vez colocando em relevo o caráter pessoal e íntimo que leva à reflexões em torno de um momento, de uma geração e de uma realidade coletiva. Suas imagens são reflexo de seu modo de vida fora dos padrões, seus relacionamentos erráticos, momentos de depressão, a cultura da noite, personagens secundários e minorias, auto representações, etc.

Evangelia Kranioti – Les vivants, Les morts et Ceux qui sont en mer

A exposição de Evangelia, na Chapelle Saint-Martin du Méjan, é vasta e composta por momentos diferentes de seus trabalhos. Algumas mais posadas e superficiais que outras, algumas mais “espetaculares” que outras. Dentre os quatro projetos exibidos, meus favoritos foram “Exotica, Erotica, Etc” e “Obscuro Barroco”, ambos centrados em um universo noturno que acabaram por gerar longa-metragens documentais, para além da pesquisa fotográfica.

Clergue & Weston: First Show, First Works

Em julho de 1970, o Festival de Arles abriu o primeiro Rencontres Photographiques sob a liderança de Lucien Clergue, Jean-Maurice Rouquette e Michel Tournier com uma Homenagem à Edward Weston que exibiu 36 de suas gravuras. Para marcar o 50º aniversário do festival, a organização recriou a mesma exposição assim como foi apresentada em 1970, com algumas imagens a mais do acervo de Lucien Clergue, para celebrar este que foi fundador e curador do festival. Suas imagens mais potentes são aquelas de animais mortos encontrados à beira de rios.  

Helen Levitt – Observing New York’s Streets

 

Pertencente ao movimento clássico da fotografia moderna, caracterizada pela captura espontânea de cenas nas ruas, Helen Levitt faz parte de um quadro do fotojornalismo muito comum entre os anos 30 e 50, que tinha como intenção promover conscientização e denúncia social, ainda que alinhado a um forte pensamento estético e artístico. Representante feminina de uma história dominada e hierarquizada por homens como Henri Cartier Bresson, Robert Capa, Robert Doisneau e André Kertész, dentre outros, a exibição traz imagens inéditas de Levitt, tiradas nas ruas de Nova Iorque e delineiam um pouco sua evolução enquanto artista e fotógrafa de rua.

Tom Wood – Mothers, Daughters and Sisters

Conhecido por seu trabalho de fotógrafo de rua, sempre apto a capturar imagens e retratos, de maneira fugidia ou posada, esta exposição faz uma seleção dedicada à presença feminina e familiar em seu acervo, entre 1970 e fim dos anos 90, demonstrando sua sensibilidade enquanto fotógrafo para captar pequenos momentos de intimidade, olhares e cumplicidade entre estas mulheres.

The Anonymous Project – The House

The Anonymous Project é um projeto que já nasceu há alguns anos e consiste em coletar, scanear e catalogar negativos e slides coloridos dos últimos 50 anos.

Pensada de maneira entremamente bem desenhada e precisa, através dos espaços da Maison des Peintres (a Casa dos Pintores), a exposição, que traz o trabalho resultante da pesquisa e curadoria da dupla Emmanuelle Halkin e Lee Shulman, distribui ampliações e projeções de modo a dialogarem com cada espaço e objeto. 

O destaque das imagens escolhidas, sua disposição e seu deslocamento do contexto original, já desconhecido e alienado da função meramente de registro familiar, permitem que sejam reinterpretadas através de um olhar novo que, ao mesclar o sentido universal em torno do tema da intimidade e do afeto com a observação de caráteres formais e estéticos, elevam o ambiente banal e familiar de uma determinada época a um caráter atemporal que dialoga com o sentimento da experência pessoal de cada visitante.

Sur Terre – Image, Technologies & Monde Naturel

Trabalhos de vários artistas, de países e culturas, sobretudo através de uma narrativa mais contemporânea, que questionam, através de instalações, esculturas e fotografias, a relação entre homem, tecnologia e natureza. 

Os artistas ali reunidos foram: Thomas Albdorf (1982), Jonathas de Andrade (1982) Jeremy Ayer (1986), Fabio Barile (1980), Melanie Bonajo, (1978), Matthew Brandt (1982), Persijn Broersen & Margit Lukács (1974 & 1973), Mark Dorf (1988), Rafael Dallaporta (1980), Lucas Foglia (1983), Noémie Goudal (1984), Mishka Henner (1976), Femke Herregraven (1982), Benoît Jeannet (1991), Adam Jeppesen (1978), Wang Juyan (1982), Anouk Kruithof (1981), Mårten Lange (1984), Awoiska Van der Molen (1972), Drew Nikonowicz (1993), Mehrali Razaghmanesh (1983), Guillaume Simoneau (1978), Troika (Eva Rucki, 1976 ; Conny Freyer, 1976 ; Sebastien Noel 1977), Maya Watanabe (1983) , Guido Van der Werve (1977)

Prix Decouverte Louis Roederer

O prêmio Descoberta exibe, no galpão conhecido como Ground Control, os 10 finalistas dentre os fotógrafos com menos de 45 anos, cujas séries documentais foram selecionadas para competir a dois prêmios em dinheiro, um escolhido pelo júri oficial e outro pelo público. Nesse ano, houve três premiados: 

O Júri oficial “deu empate” entre Máté Bartha, pela série “Kontakt”, na qual retrata um acampamento localizado em algum lugar do Leste Europeu que se assemelha a um acampamento militar, voltado para crianças e adolescentes aprenderem sobre disciplina, patriotismo e camaradagem, através de questionáveis métodos de duros exercícios e uma rotina restrita, 

e Laure Tiberghien, pela série “Suite”, inscrito numa via mais experimental da fotografia, na qual a imagem é obtida sem aparato, pela combinação de química, luz e tempo, revelando o mundo material e destacando a pele das coisas, não sua pele visível, mas sua superfície sensível.

O voto do público foi para Alys Tomlinson, pela série “Les Fidèles”, na qual retrata os caminhos da fé entremeados a um cenário bucólico centrado na figura de Vera, uma freira devota a Deus e à natureza. Esta série é decorrência de seu projeto anterior maior “Ex-Voto”, no qual viajou por lugares de peregrinação na Europa, fotografando peregrinos, paisagens e objetos, bem como as marcas deixadas nesses locais sagrados.

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Publicado por Raquel Gandra

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