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A arte e o poder das histórias, por Martin Puchner

Professor de Harvard mostra como a literatura transformou a civilização

O livro O Mundo da Escrita, publicado pela Companhia das Letras, traz a importância da literatura como agente transformador civilizatório.

Os textos escritos marcaram a evolução da história, são os códigos que definem a identidade das civilizações, como a escrita inspirou a ascensão e a queda de povos e impérios, o desabrochar de ideias politicas e filosóficas e o nascimento de crenças religiosas.

O professor da Universidade de Harvard, Martin Puchner, conduz a uma viagem histórica, de Gilgamesh a Harry Potter, e analisa a gênesis das grandes obras: a transcrição da Ilíada que Alexandre Magno levava em suas conquistas, as Escrituras Sagradas, os textos de Buda, Jesus, Confúcio e Sócrates, o primeiro romance no Japão, Genji, escrita por una mulher, e a renovação que Miguel de Cervantes fez no gênero, entre outros momentos da História Literária.

Puchner viaja além dos cenários mais conhecidos, como ao sul do Saara,onde se recita a epopeia de Sunjata ou na selva mexicana de Lacandona, onde vivem os herdeiros da cultura maia do Popol Vuh. Um livro que nos oferece uma visão nova e enriquecedora da história da cultura e como o poder das histórias moldou o nosso planeta.

Didático. Puchner atrai pelo título comercial, mas também por desenvolver um ensaio que segue o caminho da palavra escrita antes mesmo dela nascer. O autor aborda a pressão entre a oralidade e a palavra escrita em todos os capítulos, para citar alguns exemplos, Sócrates é um dos grandes pensadores que conquistou um lugar na História do “o mundo escrito”, apesar de não ter escrito nada; a Ilíada, a Odisseia, a Epopeia de Gilgamesh e a épica indiana Ramayana foram  preservadas por meio de uma tradição oral que poderia perecer pela dependência excessiva do papiro; Jesus escreveu apenas uma vez, e na areia, para que suas palavras sejam lavadas; a sabedoria de Buda é preservada nas memórias de seus alunos, etc, etc.

Professor de Inglês e Literatura Comparada em Harvard e editor geral da The Norton Anthology of World Literature, o autor evita fazer uma pesquisa direta, mas compor vinhetas que saltam da cópia da Ilíada de Alexandre, o Grande, para as escrituras judaicas, dos sermões de Martin Luther à Harry Potter, de Goethe ao Manifesto Comunista.

A escrita tem seu inicio na Mesopotâmia, cerca de 3500 aC, com inscrições em tábuas de barro, mas foram os fenícios que criaram o primeiro alfabeto moderno e os chineses com o aperfeiçoamento do papel levaram aos árabes o comércio a granel e ao mercado europeu. Puchner aborda brilhantemente o desempenho que o papel teve na formação da literatura, ambientando o cenário de O Conto de Genji, o clássico japonês do século XI da anônima Sra Murasaki, através das camadas de papel que separam o jovem príncipe da história e a garota que ele espia. O papel os separa, mas também os une, o rapaz escreve poesia para a jovem, o cuidado de dobrar o papel e receber a indiferença, o leva a sequestrar e a ensinar a escrever seus próprios poemas.

Quando Gutenberg estabeleceu sua imprensa, ele se baseou nas técnicas orientais. Sua invenção (“se ainda queremos chamar assim”, sugere Puchner), a primeira máquina de imprensa foi o culminar de idéias anteriores. E o processo se aperfeiçoou, evoluiu e chegou ao que é hoje, lembrando da produção de cópias dos sermões de Martin Luther a uma taxa mais rápida do que a Igreja poderia jogá-los no fogo.

A viagem que o autor nos presenteia é decorrente de uma pesquisa ampla, parecida com uma investigação. O professor rastreia as vidas posteriores de muitas obras literárias em seus países de origem, descrevendo, em cada capítulo, suas viagens para sentir a visão que cada autor teve ao fazer certa obra.

Puchner cria uma obra com uma profundidade e legibilidade, mas que torna o livro acessível a todos os leitores. Conecta tempos e lugares em que a literatura e os famosos livros, como os conhecemos hoje, foram criados de uma maneira nova, esclarecedora e surpreendente.

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