A caça que não deixa rastro é o zero da existência. Pois sua vida está medida pelo seu uso utilitário que é ser alimento dos outros. Aprendemos a matar quando aprendemos a somar, a juntar objetos de valor a quantificar coisas que efetuamos como fonte de desejo. O próprio dinheiro é um montante numérico e somatório de volições, e por quanto se mata pela exponencial subida de números nas notas estampadas. Vivemos numa era acumulativa, nossa própria visão é um catálogo de eventos sensórios que ficaram presos numa ramificação ou teia de sinapses. Graças que esquecemos que apagamos fatos, que criamos vácuos entre o existir e a morte de um imagem impregnada.

É interessante notar que o recheio do círculo, seu espaço se queiram colocar tudo: casa, família, filhos, até um enclave podemos dizer que é. Mas ao idealizarmos o zero em seu núcleo, não nos vem nada, não há quantificação necessária para defini-lo. O zero é a ausência de sentido, ele não soma tanto os membros de uma família, quanto à soma de um assalto de milhões. Talvez o zero seja o próprio conceito do poetizar, da sugestão de alinhar palavras juntas sem conotação numérica para os signos da interpretação.

Partindo destas premissas colocadas aqui, a poeta Alexandra Vieira de Almeida em seu novo livro A Serenidade do Zero pela Editora Penalux, redescobre o poder valorativo do zero como fonte de indagação filosófica. Em poemas extremamente visuais e narrativos ela cria uma ontologia acerca da margem onde o zero constrói sua filosofia quase oriental & zen. Marca o homem e o mundo através da  opressão da quantificação, do acúmulo da objetificação quase narcísica do poder do ter, este verbo possessivo e traiçoeiro.

A poeta esvazia através de seus constructos toda a geometria toda a arquitetura dos status quo e também o status particular, aquele gera ódios rivalidades, pois o ego seria um montante  de dividendos e aquisições, e o zero não seria uma imagem condizente com egos à flor da pele.

A cinematografia é uma arte dos zeros. Pois sua linha, sua costura é a montagem da supressão do sentido. Toda montagem tende à esvaziar o conteúdo. Editar é suprimir valor considerativo. E no livro da poeta temos cenas que nunca excedem o dizer demais, sua poética está semantizada pelo belo cálculo do burilar imagens e sons e tropos de forma sempre harmoniosa e parcimoniosa. Um exercício de contenção do valor que a linguagem também pode enumerar para o mal, enquanto rede, enquanto ideologia de massa que sabemos que é o fruto de uma exponencialidade.

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