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Falta alma à Clarice

Com quarenta e uma páginas, incluindo a capa, e menos de trinta se considerarmos o conteúdo propriamente dito, “Em Tuas Mãos”, de Clarice Sabino, é o novo projeto da escritora, publicado recentemente pela Appaloosa Books e disponível apenas em formato digital.

Disposto em papel, seria um notório desperdício de massa celuloide, com frases feitas com pretensão poética, tais como “impossível não pensar em você no fim da página”, esta, de um pieguismo lacônico. Assentado sobre plataformas digitais é apenas um ensaio sobre a sua própria escrita e que encontrou abrigo virtual. Mais que uma poesia (frágil e ruim), a autora estabelece a frase como capítulo (II. Toco). Aliás, cada poesia é um capítulo do livro – e são onze.

O pequeno poema contrasta com textos longos, sem quebras ou parágrafos, pensamentos desarranjados, com pouca profundida poética ou filosófica.

Existem ainda iniciativas de poemas numa linguagem híbrida entre o português e o espanhol, “meia-língua” da poeta que hoje reside no exterior, em Buenos Aires, e que não poupa nem Bukowski em sua obra. Quando os poetas vão deixar o velho em paz e escrever com suas próprias dores?

 

“não se vá

fica mais um pouco

tenta de novo

vamos insistir no abismo para

onde leva a nossa alma

 

bukowski já dizia

find what you love and let it kill you

e na verdade essa frase não é dele mas presta atenção”

O melhor de “Em Tuas Mãos” é um poema introdutório de Walt Whitman, livremente traduzido por Ana Cristina César. Existem problemas – que não chegam a comprometer – , de revisão e edição e a apresentação não está assinada. Se o leitor não acompanha o trabalho da editora virtual, não tem como saber quem escreveu a “abertura”.

O livro, contudo, tem qualidades. A capa é ótima. Geralmente um dos pontos fracos nas publicações da Appaloosa, e dessa vez acertaram.

Sobrinha-bisneta de um dos maiores escritores da nossa literatura, Clarice cumpre nessa obra um papel importante: o de parente que ajuda a manter viva a lembrança do nome do bom escritor. A escritora é jovem – está na casa dos vinte anos – muito bem intencionada e tem futuro. Alicerçada em sucesso anterior nas redes sociais, precisa apenas impor alma à sua escrita.

O livro pode ser baixado gratuitamente no endereço eletrônico da Appaloosa.

Seu trabalho anterior, “Para que serve a poesia?” (Penalux/2018), muito melhor estruturado, pode ser adquirido no site da Editora Penalux.

Marcelo Adifa

Publicado por Marcelo Adifa

Marcelo Adifa é jornalista, roteirista e redator. Autor de Exílio (2015); A quem se fizer estrela (2016) e Saltar Vazio (2018), entre outros livros de jornalismo, poemas e romances.

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