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Jabuti: Melhor livro do ano é de poeta do interior do Ceará

Mailson Furtado Viana é um desconhecido entre os frequentadores das panelinhas do meio artístico e do universo decorrente delas. Suas posições políticas não são reverberadas entre aqueles que fazem listinhas de artistas a serem perseguidos ou os que são acossados por estes. Sequer constava, a considerar o começo do ano, em qualquer aposta para ser premiado por seu trabalho literário. Quem é Mailson? Perguntariam, assim, os donos das letras e fardões.
Dentista de formação, morando e atuando em região sem muitos recursos no Ceará, onde qualquer dificuldade é tarefa a ser vencida pelos fortes, Mailson cravou sua poesia entre o que de melhor se produz no Brasil atualmente. Seu livro “à cidade”, editado de forma independente – de fato, não com o título que algumas editoras carregam sem serem de verdade – traz suas impressões, muitas vezes bucólicas, sobre o crescer e ver o desenvolver-se das pequenas cidades cearenses, em especial sua Cariré natal, com quase vinte mil habitantes e movida pela vagarosidade imposta pelas adversidades e que são notadas em muitos dos escritos do poeta.
Seus poemas são um arrastar de simplicidade, nostalgia e resistência. Da insistência em puxar versos por estradas marcadas a passos e poeira é que reside parte da beleza de suas criações. Mailson não renegou apenas o mercado editorial – que o tinha descartado antes –  ao acreditar em si e lançar-se por conta ao mundo com seu livro. Descartou a ilógica pretensão dos que defendem a sempre necessária – para eles – desconstrução da palavra e da linguagem para o fazer bem a poesia. Ao premiar o seu trabalho, o Prêmio Jabuti, em sua 60ª edição, reconheceu na leveza o que o fazer poético precisa para manter-se vivo e atraente.

Jabuti: Melhor livro do ano é de poeta do interior do Ceará | Críticas | Revista Ambrosia
“à cidade”, premiado na 60ª edição do Prêmio Jabuti

Melhor livro de poemas  e ganhador da categoria de melhor livro do ano, – totalizando R$ 105.000,00 em prêmios, editado por conta prória, realizando o garimpo de soluções e aplicações para a escolha dos poemas, a ordem em que estariam, o projeto da capa e, o mais difícil, a distribuição e defesa dos seus escritos. Em seu “à cidade”, Mailson se fez ouvir. Pode ser que o grito ecoe em poucos, que ouvidos incomodados tentem calá-lo, menosprezando seu sucesso ou talento. Questão de sorte? Não. De boa poesia. Da poesia de Drummond – assim bem lembrou o jornalista brasileiro Astier Basílio, radicado na Rússia, ao tomar contato com os poemas de Mailson Furtado. Há um bocado em “à cidade” do que temos de melhor em nossa poesia, sem precisar inventar, sem apelar para fórmulas bizarras, títulos longos a mais de metro, sem depender de gráficas que se vestem do jaleco de editoras. Há um mundo possível para a ótima poesia brasileira e que resiste grotões além de Rio, São Paulo, ou dos botequins onde chatos vendem fanzines ou livros ruins.
A vitória de Mailson Furtado é um alerta necessário ao mercado editorial e demonstra que a poesia sobrevive independente das editoras – sejam as grandes, médias ou pequenas. Ela resiste. Está ali. As portas estão abertas. Aprendam com ele. Aprendam a fazer poesia, a editar, a publicar, sentir em seu quintal algo que desperte paixões. Não é preciso nada mais.
O livro “à cidade” pode ser solicitado ao autor em seu perfil nas redes sociais.

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