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Livro "Amortalha" (exer)cita no conto os rostos narrativos do fim

Por que certas obras falam da morte ou a tematizam com uma falta de pudor que beira a intimidade? Destemor ou não, há, em certas culturas, uma interdição que ronda a cabeça de escritores e dramaturgos por que falar dela te diz como você vive, dentro, com seus órgãos sãos, das possibilidades e riscos que você corre ou ameniza ao estar tão perto. O desespero é uma forma de lucidez ao olhar a existência como um esperando Godot interminável. A dupla hélice do jogo entre ação & espera que Beckett brilhantemente expõe através do próprio processo da linguagem, pois na linguagem, existem vazios tão retintos como a (in)existência.
Jogar xadrez com a morte seria uma forma de equivalência ou competição entre  ser/nada. A própria morte seria a imagem,  a priori  da metáfora suprema juntanto Eros, prazer e consciência.
Contos são histórias lacunares por excelência, quase caminhos de labirinto onde o fio da história se esticará até uma pequena morte chamada Fim lhe vedar mais algum sentido. Contos são a vida diminuída, a mão que escreve tem em si já o germe da finitude. Este traçado, talvez, o conto repita o que se chama de vida, um conto estendido, que pela concisão e brevidade pareça mais com a vida do que um espalhafatoso romance.
O conto pela sua brevidade não permite pensar reflexivamente adiante, muito menos fazer planos, o Fim é logo ali no dobrar a esquina ou a página. Como disse Cortázar, o conto vence por nocaute e nada melhor do que ter a morte como uma pugilista nestes contos marcados pela nódoa do pertencimento. O escritor Matheus Arcaro nos brinda depois de um romance agora com uma nova seleta de contos Chamado Amortalha (Editora Patuá).
Livro "Amortalha" (exer)cita no conto os rostos narrativos do fim | Críticas | Revista AmbrosiaMas Matheus não cria narrativas cujo tema amarre os enredos de forma a dar um nó estilístico. Sua grande capacidade de construir enredos tão variados entre si, com arquétipos fluindo muito bem pelo traço da escrita e pelo laço de dar aquele arremate que a narrativa breve merece. Sua imagética estabelece alguns pontos de comenta e análise sobre por exemplo Sócrates estar sendo analisado por Freud e ele estar preocupado com a transmissão de seus conhecimentos à seus discípulos. O autor magistralmente se utiliza dos vieses que estudaram o humano, e delineia suas ironias, os sabores de cada linha de pensamento: a psicanálise ,mais fruitiva, a filosofia, centrada.
O afeto entra em muitos os contos atravessado por uma espécie ou de culpa ou de um tipo compaixão entre homens e animais. A tapeçaria vida muitas vezes é por demais traçada por tantos fios que sentimentalizam os padrões de afecções que no momento da perda, estamos vendo por uma lente embaçada que não se permite enxergar de modo tão simples. O autor faz em certos contos, o que podemos chamar de fechaduras da memória. Ações que ficaram travadas por comandos ou de filhos com os pais ou de algum tipo de relação familiar.
Aspectos irônicos que rodam a morte, como o homem que pensa em se matar e liga para um serviço, a relação de franca simetria entre quem carrega algum peso na consciência ou não aguenta mais…  e um tipo de não comiseração do outro lado, com se estivéssemos a falar do jogo de futebol entre rivais. Sua linguagem não estabelece tanta precisão cirúrgica, acho que até atrapalharia. Nestes casos, do fim ou morte, o melhor é tangenciar o tema, diluindo de certa maneira o peso do fenecer, alocando através de cenas ou imagens visiveis, para sim fabular depois.

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