Se o Cortázar te desse um conselho ao começar um livro, preste atenção aos golpes, um tem que acertar para levar o texto e o leitor à lona. Mas se toda intensidade do nocaute viesse de um recorte não de dentro do ringue, do juiz atento às regras do pugilato, mas se narrador lutador exemplificasse com uma anedota, um causo do cotidiano, uma singela notícia. A relação de corpo a corpo não perderia seu peso, mas teria, sim, um cunho elegiaco, um toque de maestro.

A escritora Andréia Pires, no seu terceiro livro, Azaleia para erva de passarinho, (editora Concha) se cerca muito bem das linhas do tatame que o conto oferece ao proseador com algum bom perfume de jardim de gardênias. Começa seus contos com um causo: um  inicio prosaico, quase um adendo informativo. O personagem pensou assim, esta ação começa afeita desse modo.

Um jeito de cronista de iniciar o embate entre a ação dramática e um olhar atento e super afetuoso com seus personagens. Há em Andréia uma imagética forte em puxar os fios da narrativa num tom ao mesmo tempo fabular e memorialístico que vem sempre dos belos cronistas. Ela proseia como poucos, mas sem nenhum tipo de retórica, sua andadura ou cavalgadura se parece mais com um tipo de dança que estabelece um corpo ou padrão entre o ritmo interno da sua narração.

Sua visão do comportamento humano é tão contemporânea nas nuances, e nas percepções do que tanto o homem quanto a mulher tem de idiossincráticos, mas a autora não julga comportamentos; desenha cada matiz de jeito ou perfil do outro se mostrar sem prejulgamentos, sua noção de ver uma história a ser contada zera qualquer tipo de pré-requisito a estereótipos de conduta da ação normativa.

Não vou mentir que vi certas lutas entre gêneros, certa desesperança de alteridade na diferença dos sexos. Mas não há qualquer tipo de revanchismo ou maniqueísmo entre mulheres e homens. Talvez este olhar prosaico sobre uma realidade que no seu prisma, no seu olhar carregue um pouco de sua sabedoria quanto a certos homens não estão ou não estarão juntos e misturados com suas companheiras.

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