A poética pode ou deve ter um caráter de reflexão? O poema apenas exala imagens por ligação entre si? A curiosidade deve ser um pré-requisito de um texto memorialístico? Ou apenas guardar dados arquivados pela memória? O que é uma sugestão em um conto que o fim é aberto?

Há um deslocamento em um texto onde a vida pode ser sua passageira numa viagem sentimental. Na qual se revisite nuances de passagens da vida. Fatos biográficos mexidos pelo teor amarelado do futuro.

Viraram névoa da lembrança ou adquiriram novos contornos, sendo novos agentes do presente que se escreve. A crônica é passageira? No seu sentido de tempo? Se ela própria descreve o tempo dentro da roupa que tem o corpo do que é narrado. Ou seria ela a própria uma metanarração? Falar do seu próprio feitio de tornar afetivos discursos  da memória, do batimento do instante que cabe em si e na eternidade. Sei que o bom texto de crônica cabe num copo mais ou menos cheio. E que ao bom bebedor não sabemos o que toma, já que chegamos atrasados ao encontro. Só sabemos do depois, quando sentamos à mesa e vemos ele nos contar com olhos calmos, um determinado causo ou toada que dá uma bela montaria.

O livro de textos de crônicas de Chico Lopes, O abraço do cegos, editado pela editora Penalux, carrega este chegar na hora do copo já usado. O leitor não sabe o teor do líquido até se interessar pela prosa do narrador-bebedor. Há uma parte submersa que é talvez o início do texto, um certo liame sentimental pelo qual o poeta começa a deslindar. Chico inicia com algum tema, um filme como Cinema Paradiso, ou um verso de um poeta admirado. A coisa transcorre calma, sem sobressaltos. Há um fio constitutivo que parece que liga a conversa a trilhos durante o percurso do papo ou do texto.

Não há que ter premissas muito reflexivas, já que o tom da conversa não pode ter hiatos  (não há que parar para pensar sobre o que outro diz) – fica chato. A bebida está sendo tomada aos poucos, aos goles como se diz, com um sorriso entre os lábios. Chico sabe com dosar uma prosa, seu tom é narrativo com pedaços de poética metidos no meio do conteúdo. O tema aparece pelo meio num leve adendo assim como uma anedota pode surgir de uma conversa meio séria. Ele passa pela cidade Novo Horizonte; revê casas por onde cresceu, encontros com amigos que não via há tempos.

Passar pelos temas talvez não seja tão  passageiro. Há que se ficar pra eternizá-los pela fixidez da escrita. A crônica fixa de um jeito insolente? Ela não deixa vestígios de crime algum, ou deixa? Como o copo que agora depois que termino esta resenha não há mais em que(m) contar. Ele está vazio. E dos assentos eu só vejo o etéreo/resiliente.