Qual seria a função da lâmina se nela não houvesse o sangue. Dizer o mesmo de um simples copo, na dúvida, entre uma substância e seu veneno. Coisas designam, mas nem só de aparências vivem a matéria que sirva ou não de núcleo, de interioridade. As palavras podem também ter sua viscosidade, elas ou escorrem de lado ou sentido, melam compreensões entre fala e escuta. Deslizam e só por isso podem servir de folhas, material das árvores, parecem fixadas, mas é só ilusão. Nela vemos seiva dentro de suas veias, passe a lâmina por uma, e verá a viscosidade em pleno ar dos pulmões.

Um país que tem tantas culturas também revela seu visgo, um palavra em Maceió aqui será nome surdo, a compreensão virá de algum tipo de tradução. No livro do poeta Expedito Ferraz Jr, bem intitulado “O Visgo das Coisas” pela editora Penalux, temos estas interioridades que revelam um certa semântica deslizante como uma boa polpa. O poeta através de um jogo de palavras que também deslizam pelos versos, cria pequenas cantigas como a do velho no saco, ou o galope sem freio numa raiz bem própria do fabulário da região Nordeste, uma mitologia que usa deliciosamente bem a relação entre hábitos, culturas e animais que não aparecem como ilustração apenas imagética do poema. Há certa sabedoria no conto-poema do velho no saco, relação de experiência e filosofia do vivido, e o poeta traça de forma alusiva toda narrativa fabular de olhar sobre alteridade de um personagem à margem.

A cantiga do velho no saco

A mim, me roi o segredo

do velho ( viejo?) que vejo

desde eu menino, ele velho

e ainda agora, em andrajos,

num desenredo estrangeiro

ao meu próprio desenredo

carregando algum mistério

nas costas, dentro de um saco.

Há nestes ótimos poemas uma interessante operação um pouco sutil de metalinguagem, como se poeta tivesse a hábil intenção de brincar com o tropo da poesia, ao fazer estes deslizamentos, entre forma e conteúdo, um pouco como se a escrita fosse a lâmina da página que imprimi mas também a que corta a superfície das coisas: a pele da linguagem: dentro há…

Há no livro algumas imagens frutíferas aqui tanto no sentido de riqueza vocabular- e- semântica quanto a utilização de um veio de polpa/interior, podemos até deduzir uma relação entre cidade urbana- e- zona rural. Estas relações entre o oral e o civilizado, entre o folclore e a cidade com a máxima carga tributária de informações.

Expedito também utiliza uma especial apreço pela relação espacial entre o foco que o poema utiliza e um lugar revisitado como cena.

Vista Aérea

a certa altura

a vista do cemitério

se afigura

como a visão

de uma única sepultura

a certa altura,

já a toda cidade

se mistura

essa impressão,

e a arquitetura

de alamedas

letreiros e ladrilhos

faz ver canteiros,

lápides,

jázigos

Neste sentido a pena-escrita-câmera do poeta talvez seja um tipo de viajante que aloca através da sua poética – uma miscigenação – de olhares, um pouco, como um antropólogo quando sai em viagem vai com um olhar estrangeiro ver a raiz daquela árvore que pode ser de um jeito ou de outro.

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