A mão seria este pequeno apêndice que nos une as coisas. Talvez a nossa primeira narrativa táctil de objetos que aprendemos a descrever narrativamente. Assim, como uma distância, nos guarda dos olhos, pelas coisas. Olhamos com a visualidade da câmera dos olhos mas será que ela é imageticamente objetiva na descrição dos objetos, principalmente, os que trazem certa natureza hostil? Precisamos de uma garra (e um tocar, recolher o fato pela coisa) para o dorso (o conteúdo da mão). Assim começamos a narrar pelo contato áspero de um cabo de faca, a mexer na agricultura com uma enxada preenchendo a terra com sementes.

No livro Pequeno catálogo de instrumentos da morte (e seus usos cotidianos) pela editora Patuá, o autor Alexandre Boide descostura uma possível genealogia classificatória enquanto forma narrativa onde escreve suas fábulas ou enredos com uma suave veia alegórica, narrando eventos cotidianos desde o período da adolescência (idade de recorrências e testes) até a forma adulta de ver o mundo e se envolver com ele de alguma forma operante de acordo com uma certa reatividade ou não. Como um fósforo aceso perto de um setimento combustível ou inflamável. Variando de um formato poético, o qual seria um texto corrido em verso livre num fluxo de pensamento e texto contínuo e privilegiando uma camada semântica em profundidade (o chamado subtexto) assim quase como um roteiro poético de cinematografias ao toque da mão.

Alexandre para cada texto intitula um objeto agudo/cortante ou inflamável ao uso da garra do nossos apêndices, das nossas mais proeminentes extremidades – o que temos em fronteiras com outros além de nossos membros que capturam no ar, coisas e objetos, dos quais a letalidade nunca é aparente, assim, como uma enxada utilizada por um lavrador pode ter um mote sanguinário por disputa de terras.

E faz do uso destes objetos fatos não banais de dolo, as vezes por si mesmo, ou causa, e também buscando neles, acepções e significados que o uso constante ou rotineiro às vezes não fazem vista na sua função de morte ou perigo. É como  se o autor semantizasse cada conteúdo como a pólvora ( descobriu a pólvora, diz a frase consensual) com seus usos tanto para os fins provenientes pacíficos ou para fins da destruição.

Há sim, parece, uma pequena espera de um objeto dormente à espera do uso por alguém que vá como uma espécie de doutrina, pois doutrinamos também os objetos de presença cotidiana. Assim como temos uma ideologia, há na mente do homem um certa latência pelo cunho ou pela índole que come cada um que interage com o mundo e com o real sempre com seus olhos.

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