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O caderno dos pesadelos, de Ricardo Chávez Castañeda e Israel Barrón

Resenha do livro lançado pela Sesi-SP

O caderno dos pesadelos, de Ricardo Chávez Castañeda e Israel Barrón | Críticas | Revista Ambrosia

Nunca julgue um livro pela capa”, é o que as pessoas costumam aprender quando criança, sejam elas leitoras ou não. É o caso de O caderno dos pesadelos, dos mexicanos Ricardo Chávez Castañeda e Israel Barrón, publicado pela Sesi-SP editora, um livro que possui aparências de um daqueles livros infantis com histórias de finais felizes e lições de moral, porém logo nas primeiras páginas percebemos que não é bem assim.

O título também engana, já que mesmo tendo a palavra pesadelos no nome, sugere que seja uma história onde um monstro, como o bicho-papão, ganha contornos mais humanos e por fim, revela-se que não é tão assustador assim. Porém, somos apresentados à contextos onde os humanos é que ganham contornos monstruosos.

Essa proposta, desde a ideia de livros ilustrados infantis bizarros até a metáfora do humano-monstro, sempre é capaz de proporcionar excelentes obras de terror e suspense, como o mangá Monster (1994-2001), do mangaká Naoki Urasawa, que através da metalinguagem, cria livros ilustrados sinistros que apresentam uma relação estreita entre humanos e monstros.

O caderno dos pesadelos, de Ricardo Chávez Castañeda e Israel Barrón | Críticas | Revista Ambrosia

O livro O caderno dos pesadelos é um compilado de contos bizarros que aparentam ser pesadelos. Ademais, sabe-se que desde épocas primitivas, o sonho é um mundo misterioso e esquisito, até mesmo para a ciência. Toda a neblina em volta desse fenômeno abre uma margem imensa para especulações sobrenaturais.

Sendo as terras oníricas um solo fértil para o terror, é extensa a coleção de obras artísticas voltada para o tema, como no filme A hora do pesadelo (1984), que apresenta o sádico Freddy Krueger, um assassino que mata as pessoas enquanto sonham. E O colecionador de pesadelos é genial em utilizar o termo no título, pois leva o leitor a se questionar se as situações narradas são reais ou fruto da imaginação de seus personagens.

E por falar nos personagens, cabe aqui destacar a escolha de contar a história sob a perspectiva das crianças. Não é de hoje que as produções de terror têm a figura da criança como foco, muitas vezes de maneira controversa, sendo a criança vítima do horror ou seu principal causador. Como prova disso temos o trio de ouro do século passado: O exorcista (1973), onde a menina Regan MacNeil é possuída e atormentada pelo demônio Pazuzu; A profecia (1976), que apresenta o garoto Damien, cuja presença provoca tragédias às pessoas ao seu redor; e O bebê de Rosemary (1968), que mistura ambas características, pois a referida criança é fruto de uma conspiração diabólica e ao mesmo tempo provoca o terror em sua própria mãe.

Essa escolha de narrativa se deve sobretudo às concepções do imaginário coletivo que associam a fase infantil com um estado de pureza e esperança, e ao nos depararmos com o arquétipo da inocência sofrendo de mazelas sobrenaturais, nos sentimos impotentes, pois imagina-se que, se um pequenino não está imune à maldade, tampouco os adultos. E essa sensação de desesperança permeia todos os contos do Colecionador de pesadelos, pois somos apresentados a crianças que se veem diante de situações estranhas e que estão indefesas à perigos, visto que não compreendem o que se passa ao seu redor.

Neste ponto, compartilhamos da insegurança dos protagonistas, pois a forma como a trama se desenrola não deixa muito claro o que está acontecendo e ficamos ansiosos (e, contudo, receosos) por descobrir o que virá depois.

Também é interessante ressaltar a possível e sutil metáfora recorrente na obra que associa as assombrações que atormentam as crianças com mudanças e problemas que costumam afetar profundamente as crianças, desde a mudança de dentes até a perda de um ente querido. Outrossim, além dos monstros visualmente descritos, as crianças precisam lidar com medos impalpáveis, como a indiferença, incompreensão e até abandono dos adultos.

E o que falar da narrativa? De forma gradativa, somos apresentados aos personagens e seus conflitos, levando certo tempo para assimilarmos as informações. E a cada revelação, nos vemos absorvidos no enredo. Com descrições confusas (visto que partem da ótica de crianças assustadas), nossa imaginação é desafiada a unir os pedaços do quebra-cabeças.

Os ambientes onde se passam os fatos também não ficam muito claros, o que gera uma atmosfera de desconforto surreal, pois as cenas possuem elementos conhecidos (circo, parque, poço), mas que ganham conotações mais obscuras, com eventos incomuns. Entretanto, o livro fica ainda mais bizarro com as ilustrações que acompanham cada conto, com traços grotescos e monstruosos, que transmitem visualmente, de maneira eficaz, o clima perturbador existente nas palavras.

Todos esses elementos unidos criam um clima de tensão e incômodo que nos provoca diversos sentimentos desconfortáveis, como medo, tristeza, morbidez, melancolia, desesperança, repulsa, insegurança e impotência. Além disso, os finais inconclusivos contribuem para tirar o sono do leitor, pois a ambiguidade das últimas linhas de cada conto nos deixa curiosos para saber que fim levaram os personagens, se conseguiram vencer seus medos ou se foram vencidos por eles, se as duas coisas ou nenhuma delas.

Enfim, O caderno dos pesadelos é uma obra-prima do terror psicológico que consegue prender nossa atenção da primeira à última página, nas quais encontramos, em cada linha, horror, pavor e medo. Um verdadeiro pesadelo.

Nota: Excelente – 4 de 5 estrelas

O caderno dos pesadelos, de Ricardo Chávez Castañeda e Israel Barrón
4 / 5 Crítico
Avaliação

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