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O Deserto de Dias Apressados de Dyl Pires

Poeta e ator maranhense consolida sua obra em São Paulo e lança novo livro

Dyl Pires faz parte de uma safra de artistas do Maranhão que encontraram na encenação e na palavra escrita os mecanismos para a representação da sua arte. Nascido em São Luís, capital do seu estado, sua escrita é marcada por uma certa melancolia e aquela sensação de reviver, de rememorar tempos que foram ou poderiam ter sido, tamanha a delicadeza da sua poética.

Como ator participou dos espetáculos Roberto Zucco (2010); Satyros Satiricon (2012), Edifício London (2013); Édipo na Praça (2013); Não Vencerás (2014); Você Está Livre (2015); Terra dos Outros Felizes (2017), entre outros. Como poeta tem publicado os livros O Círculo das Pálpebras (Func/1999); O Perdedor de Tempo (Pitomba/2012); O Torcedor (Pitomba/2014); Éguas (Pitomba/2014) e está lançando pela portuguesa Chiado seu mais novo livro, Queria Falar do Deserto dos Dias Apressados.

Seu novo trabalho apresenta uma produção sólida, consistente e que não contradiz a doçura da essência poética do autor e dos livros anteriores. Ao contrário, lhe é complementar. Pontuado por impressões da realidade – alguns classificariam certos escritos como aforismos, prefiro designar como poesia minimalista – a precisos recortes em prosa poética, o que poderia tornar-se um livro híbrido e enfadonho por transitar por linguagens diferentes e pela precariedade da temática tempo, adquire uma costura que o torna agradável, forte e atemporal. É um livro para ser lido na pressa das metrópoles ou repassar rápido a vagarosidade do passado e tudo o que ele inspira. Pires repete a abordagem de um tema que costuma trabalhar: o tempo. Talvez por ser isso que mova a cidade que o acolheu, ou mesmo a sua própria necessidade de criar e ser visto como ator e autor.

Para dias apressados, escrita rápida, pensamento ligeiro e forte. E do deserto das palavras, a poesia ao aparecer tem a leveza e beleza de pétalas que se espalham. Inevitável não lembrar de outro poeta maranhense, o grande Ferreira Gullar, ao afirmar em seu Poema Sujo  que:

 

“a cidade está no homem

quase como a árvore voa

no pássaro que a deixa”

 

São Luís e o Maranhão permanecem na poesia de Dyl Pires, quase como a árvore voa no poeta que a deixou, assim como a cinzenta São Paulo que o acolheu. Pires está além, e ao mesmo tempo nos traz a essência de sua terra – e poética – ao nos apresentar versos como:

 

 

“Não se tinha mais como língua o alto silêncio

dos olhos. Por exemplo: olhos cavados:

mistério-bicho do mundo.”

 

Ou então:

 

“Escalar o alfabeto do sonho. A sílaba alta

do destino. Como um chapéu novo

que se põe na vida.”

 

Por fim, o concreto, essência paulistana, é lembrado nessa bela construção:

 

“Os Bandeirantes são os mais fotografados.

Por trás de cada click há o concreto. Por baixo

de todo o concreto há uma floresta muda.

Lá ainda ouço o som do rio a correr pela

Garganta dos últimos índios.”

 

Queria Falar do Deserto dos Dias Apressados (Chiado/2019) pode ser adquirido pelo site da editora portuguesa Chiado ou com o autor, através das suas redes sociais.

Lançamento em São Paulo: Dia 14 de dezembro a partir das 11h na Tapera Taperá – Avenida São Luís, 187, loja 29, República, São Paulo.

 

Cotação: Muito bom.

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