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“O filho mais velho de Deus”, o declínio de Mutarelli

Escritor paulista erra a mão em romance com temática amorfa

Lourenço Mutarelli ressurgiu das sombras nas últimas semanas. Primeiro, em entrevista à Folha de São Paulo em que divulgava seu novo livro, “O Filho Mais Velho de Deus e/ou o Livro IV”, aproveitando as disputadas páginas do jornal paulista para remoer miséria e declarar-se falido mesmo tendo agenda repleta em eventos de entidades e órgãos como o SESC; depois ao transformar um evento literário em pastelão ao agredir o também escritor Marcelo Mirisola sem dar-lhe chance de se defender. Verdade que a agressão teve a mesma intensidade mantida pela sua literatura: um soco e um empurrão, nada nocauteador.

Desenhista, pintor, escritor, Mutarelli transita em vários espaços, dominando apenas um, o dos quadrinhos. Nessa seara ele é insuperável. Como escritor seu tempo é passado, faz muito que não produz nada à altura do nome que construiu a partir da adaptação de seus livros para o cinema (O Cheiro do Ralo) e a interpretação de personagens débeis. Você deve lembrar-se de Mutarelli como o velhinho tarado e bocó de “Que Horas Ela Volta?”, ponto baixo do filme.

Em seu novo livro já causa estranheza a capa, horrível. Embora traga conectividade com a temática do livro, sobretudo pela presença de uma nave espacial, a capa é estranha, como se a Companhia das Letras estivesse disposta a reeditar os trabalhos da extinta Cosac Naify, sem, evidente, a mesma competência gráfica desta.

Contando a história de um sujeito fracassado e que entra para uma seita com o objetivo de recomeçar e ter uma vida diferente, a temática de Lourenço é similar à encontrada em diversos filmes e livros “B” dos anos setenta. Charles, o personagem principal, espera pela iniciação nos tais Cães Alados – seita “ETvangélica” em um hotel de Nova York enquanto revisita memórias, ficando obcecado pela sua primeira experiência sexual, com uma tal de Sarah Jane (inevitável não lembrar dr Sarajane, cantora de “abre a rodinha, meu amor, abre a rodinha”), que faz da transa elemento a três entre Charles, ela e o amigo Peter. Mas, como a tal Sarajane – a cantora-, sua quase xará mantém predileções interessantes.

Alcoólatra, Charles transita pela cidade mantendo contato com uma rede de supostos reptilianos e conhecendo as suas verdades. Buscando compor um texto engraçado e propondo-se a compor um retrato existencial dos nossos tempos, o que vemos é uma afirmação patética de linguagem. É o pior trabalho do escritor paulista.

O livro “O Filho Mais Velho de Deus e/ou o Livro IV”,  faz parte da coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras. A editora enviou dezessete escritores brasileiros a cidades estrangeiras por um mês com a tarefa de voltarem com uma história de amor. Alguns entregaram bons livros, outros, nem tanto. É a oitava obra de Mutarelli.

Avaliação 1.5/5

2 comentaram

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  1. Achei um pouco injusto com o livro… já li todos os livros do Mutarelli, apesar de não ser grande fã, e penso que essa foi uma das histórias mais instigantes. tem uma forma esdrúxula de narras assuntos e temas bastante pertinentes, além do curioso jogo com os homônimos dos seriais killers.

  2. Obrigado pelo comentário Eduarda. Também achei tanto injusto com o livro, com o que deveria ter sido um livro melhor. Injustiça praticada pelo próprio autor. Sou fã do Lourenço, muito mais do quadrinista que do escritor, mas sou fã, apenas acho que errou a mão, tanto que nem falam mais desse material dele. Abraço

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Marcelo Adifa

Publicado por Marcelo Adifa

Marcelo Adifa é jornalista, roteirista e redator. Autor de Exílio (2015); A quem se fizer estrela (2016) e Saltar Vazio (2018), entre outros livros de jornalismo, poemas e romances.