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“Poemas para metrônomo e vento” estabelece através de um ritmo cadenciado uma poética sutil do movimento

Sempre me interessei muito pelos modos de ser da brisa. E porque só a noto em regiões afastadas do civilizado, como matas, sítios, fazendas e florestas seu principal meio de existência. Talvez pelo silêncio destes locais, possamos estar atentos ao seu loco de existir que é o breve som de um rumorejar de algum objeto como folhas que balançam em um ritmo compassado.

A brisa pode ser disfarçada com um ritmo musical, só não sei que tipo de instrumento sonoro seria? E de que cordas perpassariam seu sopro, pois a brisa vem da onde? Do amanhecer? Do entardecer? Por que ela está associada à mudança da luz como o escurecer? Sou neto de fazendeiro, e me recordo das brisas poentes em Minas onde o poente vinha junto com o balanço musical das árvores.

Porque perpasso a brisa nesta resenha poética? Para me auxiliar em doces ver-des das imagens que são árvores-fruto da nossa imaginação e voam ao sabor do vento. Por quê? Toda canção tem um batimento interno como o pulsar da vida tem um dentro do peito meu-seu. Dizem que para aprender música é necessário um pouco de matemática, pois são cifras e motes cheios de compassos e pausas. Mas, gente, nunca vi nada tão diferente desta arte dos números e linhas do que a poesia em seu colocar no meio do pensamento onde se inicia um poema. A brisa sim, não se sabe da onde vem. Assim como o poema, alguém sabe como se materializa.

Quando li os poemas da Roseana Murray no seu mais novo livro Poemas para metrônomo  e vento da editora Penalux, pensei que cada espaço em branco tinha um devir de brisa ali balouçando em fuga ou raiz. Fiquei me perguntando como a poeta começa esses seus poemas, que começam com uma simples palavra-ideia, e vão se formando com uma certa coesão semântica muito sua, da própria poeta, com umas misturas de palavras com leveza e peso dentro de suas possibilidades de sentido e som encarrilhadas que nem um trilho de um trem que carregue um tipo de música – um trem melódico – que fosse intenso de azul.

Um ritmo de certas canções que parecem com certas fábulas que funcionam muito mais pelo formato de se compor dentro de contextos no caso a página de um livro, do que pelos temas que necessariamente perpassariam pelos poemas. Digo melhor, os enredos só acontecem pelo exímio poder de construir frases melódicas encadeadas de forma simples e extremamente alusivas. A poeta na maioria dos poemas repete uma determinada palavra poética mas mantendo a ação em curso nas linhas dos versos.

É muito interessante notar que os poemas tenham  temas poucos e coesos como o vento e a cor azul a nortear uma andança poética pela jornada adentro do livro. Pela forte criatividade de Roseana em trançar imagens e palavras no intercurso do poema, os temas não se tornam nem monótonos nem repetitivos. Parecem gradações de uma mesma matiz que se esmiúçam poeticamente indo ao íntimo ou ao ínfimo das coisas.

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Publicado por Fernando Andrade

Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski.