Poemas para o fim dos tempos, novo livro de Barbosa Lagos | Literatura | Revista Ambrosia
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Poemas para o fim dos tempos, novo livro de Barbosa Lagos

Não de hoje a poética de Barbosa Lagos é marcada por uma sonoridade inconfundível. Não se trata apenas do ritmo que dá aos seus escritos, mas ao som dos seus versos, desencadeando musicalidade única e inerente ao seu estado anterior de membro de uma banda de rock. Acredito que a banda era ruim, como são a maior parte das bandas de rock que garotos que amam música formam em suas adolescências. E ser ruim, nessa fase da vida, não é mau negócio. Ao contrário. É uma oportunidade interessante para o experimentalismo e para a depuração de nossas verdadeiras qualidades. Perdeu a música, ganhou a poesia.

Barbosa Lagos é dos ótimos  nomes entre aqueles que não figuram nas  panelas literárias. O poeta faz sua reputação daquilo que escreve. E escreve muito, tanto positiva, quanto negativamente. Um dos seus equívocos é a não seleção mais apurada do conteúdo que irá para seus livros. Fico com a impressão de que alguns exercícios literários ganharam espaço nas obras publicadas. São alguns poemas que destoam dos demais e que não fariam falta se extirpados, dando assim mais coesão e coerência ao produto final. É o escrever muito, o escrever sem parar e compulsivo.

Escreve, porém, muito, de outra maneira. Em grandeza. Sua poesia tem traços inconfundíveis: a velocidade, o sentimento urbano e a melancolia. Em seu mais recente trabalho Poemas para o fim dos tempos (Adelante/2019), Lagos acrescentou uma faceta de certa docilidade ao transcrever em versos momentos com a família e amigos mais próximos. A idade chega, creio eu, e o velho roqueiro sente o peso dos sentimentos. Essa nova dimensão se faz sentir com naturalidade em sua escrita.

Vejamos a citada delicadeza no trecho do poema dedicado ao irmão:

 

CONHECE O MEU IRMÃO ALDO?

 

“O mundo não foi bom

com meu irmão. Nem eu.

Espero que agora ele lave a alma.

 

Conhece o meu irmão

Aldo?”

 

Ou certa melancolia presente nas lembranças da amiga Alessandra:

 

UM POEMA PARA ALESSANDRA

 

“Todo mundo sabia que

Alessandra fazia xixi na cama

porque apanhava

e era deixada de castigo

segurando o colchão na grama.

Enquanto a gente brincava

no meio da rua,

Alessandra passava o dia inteiro

no quintal choramingando.

Ainda vejo Alessandra

e tento me convencer

que éramos apenas crianças”

 

Barbosa Lagos funciona bem quando escreve com simplicidade:

 

GENTE COM CHEIRO DE TABACO

 

“O caminho à frente é cheio de carros.

Cheio de carros cheio de gente.

Cheio de gente com cheiro de mato.

Gente com cheiro de mato e tabaco.

Cheiro de lodo, cheiro de mundo,

coberto de limo, coberto de tudo.

 

O caminho à frente é coberto de mato.”

 

Até Vera Fischer, em outro poema, merece o apreço do poeta. Certo ele ao homenagear a musa de toda uma geração. Lagos só erra nos poemas em que força rimas – exatamente quebrando a sonoridade natural da sua poesia. Mas o poeta escreve muito, são 157 páginas de ótima poesia.

Não de hoje, com erros e acertos, Barbosa Lagos merecia ser mais lido e estudado. É dos mais consistentes poetas da sua geração.

Uma poesia necessária e pontual

Outro aspecto interessante nos livros de Barbosa Lagos é a forma como ele trabalha suas capas. São sempre belíssimas obras de arte conferindo unidade ao conteúdo apresentado nos poemas. Poemas para o fim dos tempos reúne aquilo que promete, uma visão caótica e saudosista de acontecimentos incertos e difíceis, uma estrutura de caos social, de exacerbação do ódio e dos descontroles da nossa sociedade apegada a mitos e mentiras. A poesia social e política do autor é delicada, não panfletária ou ostensiva, por isso ela funciona muito bem. Os poemas com essa temática não irei reproduzir. Deixarei para o leitor interessado adquirir o livro e procurar por estes escritos.

Poemas para o fim dos tempos, novo livro de Barbosa Lagos | Literatura | Revista Ambrosia
Barbosa Lagos (divulgação)

Barbosa Lagos é formado em Letras, foi vocalista de uma banda de rock nos anos 1990 e é autor de Café Irlandês (Editora Circuito/2018).

De excelente edição e acabamento, o livro pode ser adquirido com o próprio autor pelas suas redes sociais. A Gulliver Editora, detentora do selo Adelante, responsável pela obra, e que já publicou Adélia Prado e a excelente Ana Elisa Ribeiro, peca na divulgação dos seus novos autores. Barbosa Lagos até agora não foi incluído entre os autores da editora no site desta, nem seu livro disponibilizado para venda nos canais oficiais da Gulliver. No mínimo um desrespeito ao autor e aos seus leitores.

Cotação: ótimo

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Publicado por Marcelo Adifa

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