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“Saltar Vazio” reflete o mundo de um ser sem ( re)visões extremadas

Imagino um olhar nublado, assim como uma lente desfocada que não lê a imagem em sua perfeita semântica angular. Imagino os dias serem uma versão estrofada dos versos. A cada dia, seria seu correspondente ao verso. Para uma pessoa humana que cotidianiza sua vida, qual efeito poético teria para ela um pedaço da sua vida, um poema de 30 dias? Como ela se insere dentro deste contexto poético onde cada linha é uma ação em transcurso, onde requer movimento, empatia, soluções, ação propriamente dita.

Para o poeta, seu traço é derivadamente reflexão, não a imagem de um espelho, ou talvez sim. Cabe um poema numa imagem refletida em um vidro espelhado? Mas não podemos saltar para dentro do espelho. Só Alice o pode para encontrar o coelho e outras criaturas do imaginário. Saltamos no vazio dos nossos dias, dos versos contados a minutos & segundos. Alguém já fez um haicai num fremi(to) de segundo?

O tempo parece ser o mestre de cerimônias do livro de poemas de Marcelo Adifa, em Saltar Vazio, Editora Penalux. Repare, leitor, na ausência de definição de qualquer artigo+preposição antes do vazio. Vazio não cabe definições e um artigo e sua (pré)posição. Portanto o movimento que o poeta faz é de uma retratista, de um fotógrafo que usa uma lente subjetiva para filtrar luzes. Ou melhor sua opacidade, seus crepúsculos, uma forma de poente: aquela mistura de luz e negrume.

Marcelo descreve uma rotina modorrenta de algum homem que não processa um atitude de tristeza, em seus contornos cotidianos, mas é alguém que está & não incluído no mundo. Em seus poemas tanto imagéticos quantos discursivos,  vemos o desenho de um ação perene que nunca é descrição, mas sim sugestão de uma espécie de lente baça opaca que filtra a imagem em nuance captando dela seus duplos- sentidos, suas entrelinhas.

Engana-se quem não vê em seus personagens afeto ou até mesmo alegria. Não são personas que caem na inércia existencial de um Satre combalido na falta de sentido da vida. Marcelo realiza muito mais um tapeçaria dialética sobre o humor, sobre a forma nem otimista sobre os fatos e suas reflexões como também não apresenta pessimismo ou nilismo. Sua dualidade em ser um exímio intermediador entre antípodas,  entre extremos, em buscar no conflito, uma dose exata de veneno anti-monotonia. Todos sabemos que a vida não é cor de rosa. Nem muito menos cinzenta como um turbilhão de nuvens agourentas.

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Publicado por Fernando Andrade

Escritor e poeta, e jornalista, tem dois livros de poemas, Lacan por Câmeras Cinematográficas, e Poemometria lançados pela editora Oito e meio. Participa do coletivo de Arte, Caneta lente e pincel, com contos e poemas. também participa do Trema Literatura, coletivo de textos de ficção. tem entre seus escritores mais amados, Thomas Pynchon, Ìtalo Calvino, e no cinema ama demais Krzysztof Kieslowski.