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Sol na Cabeça, literatura fumaça

Futebol, cachaça, violência, prostitutas e samba. O que seria um enredo de uma das canções de Bezerra da Silva ou de outros célebres sambistas tornou-se a síntese ou conjunto norteador do cinema e da literatura nacional nos últimos anos. Pegando carona no sucesso que a favela faz com o público médio que consome (sub) produtos culturais, até mesmo os lançamentos das grandes editoras insistem em manter a linha a ser oferecida ao mercado consumidor – sim, literatura é produto, tolo quem acreditar que não. Fará, de qualquer forma, parte da máquina que tanto alega desprezar. Escritor autoproclamado marginal, alternativo ou independente, não raro é como aquele cunhado chato que temos que carregar pelo amor à família mas não suportamos. Pior quando o discurso da independência se dá sob a chancela do dinheiro em obras que apontam miséria mas custaram milhões em divulgação e marketing.
Hoje existe o livro enquanto elemento de literatura e o objeto artístico, ou melhor, decorativo. Cria-se livros como quem faz objetos para decoração, próprios para estantes e prateleiras, alguns os levam para a cabeceira em seus criados mudos. O Sol na Cabeça, livro de contos de Giovani Martins, editado pela Companhia das Letras, parece ter tomado o espaço de O Pequeno Príncipe em alguns quartos Brasil afora. Alguns não, muitos. Todo mundo tem, por mais que não tenha lido ou gostado. Eu mesmo ganhei três de presente. Sinal de que o marketing da Companhia das Letras é fabuloso. Antes mesmo de ter sido lançado oficialmente o livro já estava vendido para o cinema – ainda não se sabe se será adaptado enquanto longa intercalando suas histórias ou em outro formato – e para uma dezena de países. Giovani, o autor, é apontado na capa do livro como um fenômeno. É aquele jogador que ganha prêmio de melhor do mundo sem ter jogado uma partida sequer no ano. O perigo é o garoto transformar-se mais em Robinho e menos em Ronaldo, apagando no futuro qualquer mecha de eventual talento verdadeiro.
Giovani Martins é um Ferréz gourmetizado, quase como um cachorro sem dentes em que nem o latir assusta. Suas favelas e pobrezas tem o pente e o talco das novelas globais – ou da esquerda psolista que tudo vê como um grande motivo à brindes, ainda que o mundo lhes caia à cabeça – como atenuantes. Junção de Elba Ramalho (não pelo cabelo, diga-se) com Gregório Duvivier, Giovani, obviamente, está surfando no sucesso que seu livro trouxe, como possível fosse escritor fazer sucesso em um país de não leitores. Foi em programas globais, tornou-se vítima de uma acusação espúria de plágio por ter, pasmem, usado um termo tão comum quanto roleta russa como título de um dos seus contos. Gente boa, alto astral, flamenguista de bom papo e ótimos amigos, o autor é produto da máquina que muitos dizem combater.
Em treze contos – coincidência o número? – Giovani demonstra claro talento, mas nada que o permita ser tratado como a nova voz da literatura brasileira. Acredito que ele, pela sua simplicidade, saiba disso e se constranja com o marketing forçado colocado a seu serviço pela Companhia das Letras. Aceitar que o autor, em seu primeiro livro, é algo similar à nova voz da nossa literatura é admitir que estamos mal das pernas. Nossa literatura não precisa de ídolos, precisa de quem saiba o simples ofício de escrever. Literatura brasileira, natural que se escreva em língua portuguesa. Assim esperamos. Mas nas ânsia de empreender domínio linguístico ele tenta tecer uma construção em que o idioma pátrio de nossa Nação é descartado, fatiado e ruminado antes de ser cuspido em livro; desmanchou-se tanto nossa língua que em alguns momentos desconheço o falar ali escrito. Se o objetivo é refletir a linguagem do (seu) povo, Giovani Martins poderia conhecer a obra de Zê Carota, autor de Dropz, da Editora Penalux. Sutileza é mais nesse jogo poderoso que é juntar palavras.
Sol na Cabeça, literatura fumaça | Críticas | Revista AmbrosiaNem tudo é equivoco, porém, em O Sol na Cabeça. Exageros à parte, a realidade forjada por Giovani é bem descrita em alguns contos, sobretudo os primeiros, Rolézim, Espiral, Roleta-Russa e O Caso da Borboleta. Forjada sim, pois o garoto sangue-bom admitiu em programas que a violência e outros elementos presentes nos contos não eram exatamente lugar comum em seu crescer na periferia carioca (mania nossa de achar que tudo que é periférico nas grandes cidades é violência e crime). Tudo bem, é papel do ficcionista criar, inventar. Nisso ele está certo.
Escritor de largada, passado quatro contos, parece que o fôlego se perde. Não duvido que o novo talento da literatura brasileira – assim descrito pela Companhia das Letras – ganhe alguns prêmios no próximo período, competindo exatamente contra o fabuloso Zê Carota, mas falta-lhe ainda o viver para melhor escrever.
 
O SOL NA CABEÇA (contos)
Páginas: 120
Companhia das Letras

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Publicado por Marcelo Adifa

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