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Resenha: Seton – Um Naturalista Viajante, Vol. 01

Seton - vol. 1Com roteiro de Yoshiharu Imaizumi e arte de Jiro Taniguchi, o primeiro volume do mangá Seton – Um Naturalista Viajante, “Lobo, o Rei de Currumpaw” (R,90, 292 pág.), chega através da editora Panini como uma agradável surpresa em um mercado atualmente dominado por ninjas vestidos de laranja berrante e romances homo-eróticos. A editora resolveu arriscar com um título completamente desconhecido e uma temática aparentemente pouco atraente para o fã médio de mangás, colocando tudo isso em formato de livro (capa cartonada com orelhas, papel de melhor qualidade, dimensões maiores – assim como o preço, naturalmente) para a estréia da venda de seus mangás específicos para livrarias.

Seton é baseado em um relato real de Ernest Thompson Seton (1860-1946), naturalista de origem inglesa que emigrou com a família para o Canadá ainda criança, onde adquiriu uma admiração extremamente forte pela natureza. Defensor da vida selvagem, foi também um dos pioneiros do escotismo ao lado de Lord Baden-Powell e de Daniel Carter Beard. Aos 30 anos tentou ingressar no círculo artístico de Paris, mas suas pinturas que retratavam a vida selvagem não foram bem recebidas pela crítica, que enxergava nelas uma desvalorização do homem “provido de alma” em prol da natureza “bestificada sem alma”. Desiludido, decide voltar para os EUA e lá, no Novo México, passa por uma das experiências que definiriam suas convicções e que é o tema deste primeiro volume do mangá.

A história se passa principalmente em Currumpaw, no estado norte-americano do Novo México, em 1893, onde imensas criações de vacas e ovelhas são ameaças por uma alcatéia fora do comum. Todo dia pelo menos uma vaca de alguma das fazendas da região é morta pelos lobos. O líder da alcatéia, chamado simplesmente de “o Lobo” pelos vaqueiros da região, age com uma astúcia incrível na hora de atacar os rebanhos, evitando as armadilhas e iscas envenenadas preparadas para capturá-lo. Ao ouvir as histórias sobre Lobo através de um rico fazendeiro – entre elas relatos de como outros caçadores tentaram e falharam miseravelmente na captura do animal –, Seton fica intrigado sobre a criatura e resolve aceitar a proposta feita pelo fazendeiro para tentar capturar Lobo. A partir desse momento Seton passaria a lidar com sentimentos conflitantes: por um lado, a obrigação de realizar o trabalho com o qual se comprometeu; por outro, sua pura curiosidade naturalista de conhecer tal criatura tão singular.

Boa parte do volume se concentra nas repetidas (e infrutíferas) tentativas de Seton em capturar Lobo, ao mesmo tempo em vemos o outro lado, ou seja, como determinadas ações feitas pelos humanos são percebidas por Lobo e sua alcatéia. Esse é um dos pontos fortes do texto de Imaizumi, que consegue fazer um contraponto entre um lado e outro no decorrer de todo o mangá. Na primeira metade do volume a tendência é ver uma “demonização” de Lobo e de suas atitudes, devido ao fato de em alguns casos seus ataques aos rebanhos não parecerem simples caçadas, mas alguma espécie de divertimento sádico, como quando sua alcatéia ataca um rebanho imenso de ovelhas, matando uma quantidade considerável delas e não comendo nenhuma. Porém, conforme vamos vendo mais a fundo as ações de Lobo e as suposições bem fundamentadas de Seton para elas, fica evidente o esforço de Imaizumi em “humanizar” o animal, mostrar o quanto Lobo na verdade está apenas defendendo seu território dos invasores, usando o que poderiam ser consideradas “táticas de guerrilha” para conseguir seus objetivos. A partir da metade do volume fica quase impossível não “mudar de lado” e passar a torcer por Lobo na medida em que o cerco cada vez mais elaborado de Seton se fecha em torno dele. E a partir do capítulo 10 (dos 14 da edição), se não conseguir mudar de vez de lado, é melhor se tratar, pois deve haver algo de muito errado com você.

A arte de Taniguchi contribui de modo brilhante como complemento do texto, conseguindo transmitir bem não só as emoções de Seton e dos outros personagens humanos, mas principalmente dos animais. Suas representações dos lobos são muito realistas, assim como suas paisagens dos planaltos de Currumpaw. Seu traço consegue ser ao mesmo tempo detalhista (em particular nas paisagens e nos closes dos animais) e limpo, com um uso bem consciente das hachuras, que lembra muito o traço de alguns artistas europeus.

A mensagem do mangá não poderia ser mais clara: é a velha questão do homem contra a natureza, mas não é tratada aqui de modo simplista ou batido. Os conflitos de Seton com suas próprias convicções vão crescendo a cada tentativa frustrada de capturar Lobo, e em determinado momento o lado “caçador” parece dominá-lo por completo, e as conseqüências são determinantes para o destino de Lobo. Porém, quando consegue pensar com mais clareza, Seton consegue sentir uma admiração genuína por tudo o que Lobo representa: uma força da própria natureza, reclamando seus direitos que foram e continuavam a ser violados diariamente pelos homens com a expansão constante da pecuária nos planaltos de Currumpaw. O maior trunfo do mangá é justamente Lobo, que acaba se mostrando um personagem muito mais complexo do que poderia se esperar de um animal do tipo, adquirindo ares de herói trágico ao final da história.

O mangá termina com uma reflexão de Seton sobre toda a situação da possibilidade ou não da convivência do homem com o mundo selvagem, com uma nota consideravelmente desanimadora sobre o destino dos lobos nos Estados Unidos. Trazendo um tipo de história completamente fora dos padrões do mercado atual, Seton, com seu primeiro volume, é um diferencial muito bem-vindo para área. Resta esperar para ver se a qualidade se manterá nos dois números seguintes, mas os indicativos são os melhores possíveis.

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