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Roteirista de Luluzinha Teen responde críticas

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Renato Fagundes, roteirista da atual temporada de Luluzinha Teen e Sua Turma, enviou uma mensagem para o blog Gibizada do Globo Online mais do que esclarecedora, um verdadeiro tapa nos críticos e pré-críticos da “imprensa nacional” e “formadores de opinião”.

“Entre fascinado e impressionado, acompanhei a expectativa, os comentários e as reações diversas despertadas pelo lançamento da série Luluzinha Teen e sua turma, que criei por encomenda da Pixel/Ediouro, e que ganhou vida e arte (brilhante) pelas mãos da galera da Labareda Design.

Primeiro, achei que não devia me meter. E deixar a revista, nas bancas nesta sexta, falar por conta própria, com seus erros e acertos. Mas pensei que talvez valesse a pena expor um pouco o lado de cá, da turma que trabalhou – muito – no projeto. Essa mensagem não é uma resposta às críticas, nem um agradecimento pelos elogios. É só mais um comentário. Talvez haja quem se interesse por ler, talvez não. Uns podem gostar, outros vão odiar. Tudo certo. É assim mesmo a vida de quem vive de escrever.

Antes de mais nada, queria dizer uma coisa: leio, ouço e respeito todo mundo que deu sua opinião a partir das imagens e informações sobre a nova turma da Lulu divulgadas antecipadamente. Mesmo sendo autor – e, logo, ansioso para saber o que o nosso público vai achar do trabalho pronto –, não vejo problema em se criticar (ou elogiar) antes de ver a revista. Quem se sente ligado à Luluzinha clássica de alguma forma tem mais é que manifestar mesmo a sua opinião, quando, como e onde quiser.

Entendo e já esperava as reações sobre o Bolinha mais magro, ou a Luluzinha com menos cachinhos. Seria ingênuo achar que seria diferente. Da mesma forma, me parece ingênuo pensar que estes pontos não tenham sido discutidos exaustivamente durante o processo de criação e desenvolvimento da revista.

A criação parte de premissas: público, mercado, temática, periodicidade, estrutura narrativa, estética, e um monte de coisas mais. Para quem vê de fora pode parecer limitador, mas é estimulante criar a partir de pontos de partida estabelecidos. Até porque muitos deles foram definidos ouvindo diretamente o público que queremos atingir, as meninas e os meninos a quem o projeto se destina, em grupos de discussão e sessões de leitura promovidos pela editora.

O Eduardo Tavares, que comanda a talentosíssima equipe da Labareda, já disse que nosso trabalho foi baseado em pesquisa, trabalho e intuição. É nessa terceira palavrinha aí, com todas as incertezas que ela representa, que quem trabalha com criação precisa se fiar. Vai dar certo? Tomara que sim. Vai falar com o nosso público? Tomara muitíssimo que sim. Para o bem do nosso projeto, mas também do mercado de quadrinhos brasileiro, no qual a Ediouro está investindo decisivamente.

A gente se cerca do máximo de informação e preparação para tentar acertar. Mas nem indústrias de entretenimento extremamente maduras como a do cinema americano e da telenovela brasileira têm a fórmula secreta do sucesso, do encontro mágico com a mensagem exata, na forma precisa, no momento certo. E se até o Alan Moore – o Alan Moore! – já escreveu sobre a insegurança que sente a cada vez que entrega um trabalho, imagina eu. É claro que estou, como diria a nova Glorinha, panicado.

Tudo isto posto, deixa eu tocar numas coisas pontuais, sem querer responder a este ou aquele comentário específico, mas só passar por um ou outro território que vi sendo pisado por aí, nos muitos blogs, sites e fóruns que comentaram a Luluzinha Teen.

A nova turma da Luluzinha não apresenta, de forma alguma, uma redução de diversidade, ou uma homogeneização de características físicas. Muito pelo contrário: boa parte do trabalho criativo foi direcionada para se ter mais diversidade – racial, cultural, social – no universo da Lulu. Isto incluiu a criação da cidade fictícia de Liberta, e de vários novos personagens.

A criação partiu de um núcleo central de personagens clássicos: Lulu, Bola, Aninha, Alvinho e Glorinha. Imaginamos como eles seriam ao crescer, partindo das premissas de que já falei. A turma foi para um novo cenário, uma cidade no litoral, mais próxima do público brasileiro do que a fictícia Meadowville, ou a real Peekskill, que teria inspirado a cidade criada por John Stanley. De fato, Bolinha e Lulu não vão mais morrer de frio no inverno, nem fazer bonecos de neve. Acho que o nosso Bola e a nossa Lulu, assim como os leitores que ouvimos, não vão sentir muita falta disso.

Em torno de cada um dos personagens principais, criamos novos núcleos narrativos, do qual fazem parte alguns dos personagens clássicos secundários e muitos outros novos. Foram mantidos aqueles que tinham uma contribuição a dar neste momento inicial, como o Careca, irmão da Aninha, e o Plínio. Foram criados novos para construir cada núcleo com a diversidade que buscávamos – e aí nasceram Diana, Leon, Mozz, Rosa, Felipe, Chili, Lauro, Vicente, Angie, Jet, Téo, Lila e muitos mais. Ainda outros personagens, clássicos ou novos, podem pintar a qualquer momento, incluindo seus parentes. Eles também devem passar por algumas mudanças, porque o mundo não é mais o mesmo, nem as famílias. Nossa série também ganhou uma variedade grande de cenários, como a Escola Unida, o bar Livre, a Praia da Garganta e o game Katana! – A saga dos cinco anéis, nova mania da Aninha.

Na nossa versão, o Bolinha emagreceu. Eu sinceramente não entendo qual é o problema disso. Ele não virou um sujeito saradão e malhado (pensamos nisso), nem se manteve gordinho (pensamos nisso), nem sofre de obesidade mórbida, como já vi sugerido na internet (felizmente, não pensamos nisso). Ele mudou, assim como a Lulu, porque as pessoas mudam, as crianças viram adolescentes diferentes, os adolescentes viram adultos diferentes. E muitos, como aconteceu com o Bolinha, levam junto seus apelidos de infância, mesmo se eles não refletem mais o seu aspecto físico. Se o Careca deixar o cabelo crescer, ele continua sendo o Careca, ainda que hoje ele deteste o apelido e queira ser chamado pelo nome de roqueiro que tem (mas a vida é dura, Iggy…). O Bola mais magro continua sendo o Bola, e vai continuar sendo Bolinha mesmo se ficar ainda mais alto, ou se engordar outra vez.

Também ouvi muita coisa sobre a inspiração nos mangás, quase como se a turma da Lulu estivesse pisando em terreno sagrado. Pois o que me parece mais interessante nos quadrinhos japoneses é justamente sua enorme variedade de estilos e temáticas, de Nana a Lobo Solitário, de Gen a Love Hina, de Bambi a Slam Dunk (a escolha do primeiro e do último nomes desta lista não é por acaso…) O Mauricio de Sousa – esse mestre com quem tanta gente, eu inclusive, aprendeu a ler – percebeu essa riqueza. E mostrou que há espaço para novas iniciativas e investimentos em quadrinhos no Brasil.

Houve ainda um ou dois comentários estranhando o uso da expressão “temporada” para definir um arco narrativo de alguns episódios (no nosso caso, de quatro). De novo, o público determina escolhas, inclusive de terminologia. Chamar os arcos de temporadas é só mais uma característica da nossa história, e está longe de ser a única inspiração vinda das séries de TV. Ave Joss Whedon de Buffy, salve Rob Thomas de Veronica Mars, valeu galera da Malhação, gracias hermanos da Isa TKM, thanks pessoal da Hannah Montana e da iCarly, viva Matt Groening e roteiristas de Os Simpsons.

Deste último, veio a ideia de ter convidados reais, a começar pela Pitty, uma artista que fala diretamente, e muito bem, com o nosso público. Você pode ou não gostar da nova Lulu, assim como pode ou não gostar da Pitty, mas é impossível negar seu talento, empenho, carisma e generosidade. (Para constar: ela não ganhou um centavo pela sua participação, e ainda cedeu uma de suas canções.)

O que chega nas bancas hoje é a nossa versão da Lulu, do Bola, do Alvinho, da Aninha, da Glorinha e de sua turma (ou de suas turmas). Minha, da Pixel/Ediouro, do incansável editor Daniel Stycer, da galera da Labareda. É resultado de muito trabalho, discussão, pesquisa e, acima de tudo, de conversas e discussões com as meninas e os meninos que formam nosso público. Todo mundo, de qualquer idade, pode e deve dar sua opinião, e imaginar os seus Luluzinha e Bolinha ideais, escrevendo, desenhando, tuitando, postando. Pode botar a boca no trombone, dar ideias, meter o pau, elogiar uma coisinha ou outra. Entre quem falou, bem ou mal, da nova Lulu podem estar futuros roteiristas ou desenhistas da série. Se até o Conan Doyle resgatou o Sherlock Holmes da morte por causa do clamor dos leitores, quem sabe os comentários espalhados por aí não fermentam futuras transformações nas nossas histórias e nos nossos personagens? Eles são jovens. Têm todo o direito de mudar.

Um abraço
Renato Fagundes”

Para conferir a reportagem original visite o excelente blog Gibizada, do Telio Navega.

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