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Shotaro IshinoMori e seu Hokusai

Shotari Ishinomori (1938-1998), o rei dos mangás; ganha enfim edições brasileiras, a NewPOP traz os mangás de Kamen Rider e a Pipoca & Nanquim, Hokusai, uma obra que merece uma atenção especial como iremos fazer neste artigo.

O rei

Ishinomori é uma das peças-chave no início do desenvolvimento e estabelecimento do mangá no Japão. Foi um dos autores de Tokiwa-so, que hoje é considerado o berço dos quadrinhos japoneses. Lá conheceu outros autores da estatura de Osamu Tezuka (seu mentor), Fujio Akatsuka, Fujiko Fujio e Yoshiharu Tsuge. Seu estilo gráfico é o abre alas do mangá dos anos 50, estilo que, por outro lado, estabelecido pelo já citado Tezuka .

Durante seus 60 anos de vida, Ishinomori teve uma produção muito grande. Insanamente grande, poderíamos dizer. Tanto que atualmente detém o recorde mundial de produção de quadrinhos, com um total de 128 mil páginas publicadas ao longo de sua carreira, reunidas em 770 títulos.

Com tamanha produção, o mangaká trouxe Cyborg 009 (1963), a primeira série que reuniu um grupo de super-heróis como Power Rangers e o já citado Kamen Rider. Suas criações mais famosas e influentes, Ishinomori tocou nos mais diversos gêneros em suas páginas. Um exemplo claro disso é a obra de que estamos tratando aqui, que conta a vida do famoso pintor Hokusai, o mais alto representante do estilo Ukiyo-e.

Katsushika Hokusai: o velho pintor louco

Arte é um conceito abstrato com uma perspectiva surpreendentemente ampla, presente em todas as sociedades e culturas humanas conhecidas, um meio que reflete uma realidade, um tempo ou um mundo interior da pessoa ou do artista. Assim, a arte japonesa não se diferencia das demais, mas tradicionalmente ela é mais introspectivo, vinculada ao valor do cotidiano, em que a beleza tende a estar relacionada à busca da contemplação e da espiritualidade. Uma busca da harmonua constante qe também chegou aos mangás, mas que teve um expoente primal, Katsushika Hokusai.

Este ilustrador, pintor e gravador japonés, nascido como Tokitaro em 1760, na antiga Hojo Warigesui, Edo, hoje Tóquio, foi uma autêntica força da natureza, a mesma que tantas vezes representou em suas pinturas.

A arte de Hokusai

E quando falamos de Katsushika Hokusai estamos falando de um artista incansável, que usou até vinte e sete pseudônimos diferentes durante sua vida, e que começou sua carreira matriculando-se na escola Ukiyo-e da qual se tornou o maior representante. Ukiyo-e é um gênero de gravuras, geralmente paisagem e recortes cotidianos de temas centrais, em que se utiliza a técnica da xilogravura, muito popular entre os séculos XVII e XX no Japão.

Entre as milhares de gravuras, pinturas e ilustrações de Katsushika Hokusai, destaca-se seu trabalho intitulado Hokusai Manga, uma coleção de 4.000 ilustrações que refletem a vida cotidiana e a paisagem de Edo, reunidas em quinze volumes. Um trabalho que levou metade de sua vida para produzir, desenhando a primeira impressão aos 55 anos e sua última compilação sendo publicada postumamente. O termo manga que define o trabalho foi cunhado pelo próprio artista, traduzindo-o como “desenhos caprichosos” ou “rabiscos”. Um conceito que seria aplicado aos quadrinhos japoneses, embora Hokusai Manga não é um precedente para isso, acabou sendo relacionado a isso porque Katsushika Hokusai utilizava em suas criações, papel transparente e trabalho em várias fase, como nos mangás modernos.

Hokusai e Ishinomori: entre os mestres

Em Hokusai de temos uma obra que busca apresentar uma abordagem à figura do grande artista, uma biografia atípica focada principalmente nos seus últimos anos. É claro que a história enfoca os aspectos mais interessantes relacionados à sua produção artística como ilustrador e gravador, e Ishinomori mergulha na personalidade particular e apaixonada de Katsushika Hokusai.

Mas este trabalho não é um simples relato biográfico linear, Ishinomori divide a história em capítulos diferentes, cada um enfocando algumas passagens proeminentes na vida adulta do artista, saltando quase aleatoriamente, narrando eventos mais distantes no tempo e, em seguida, retornando a outros precedentes. Um elemento que confere ao trabalho uma grande força e intensidade narrativa, impedindo o leitor de se relaxar, construindo um puzzle que não falta complexidade psicológica, com nuances e tonalidades interessantes.

O desenho de Shotaro Ishinomori apresenta linhas cheia de vigor, que retratar os momentos mais transcendentais e dramáticos da história protagonizada por um imprevisível Katsushika Hokusai através de seu estilo cartoon, mesmo nos episódios mais cômicos sem perder a gravidade e a seriedade da história.

O autor usa essa ambigüidade em seu estilo de forma inteligente, sempre sendo tão arriscado e ambicioso quanto o próprio protagonista, e ainda ousa homenagear suas ilustrações e gravuras com suas próprias formas, às vezes, em surpreendentes páginas. Por outro lado, um dos aspectos curiosos deste trabalho é o tratamento realizado por Ishinomori do aspecto sexual, recriando repetidamente na vitalidade e ímpeto de Katsushika Hokusai , e captando certas passagens eróticas que acabam parecendo bastante injustificadas.

Em todo caso, um pequeno vício que não afeta o grosso da obra, uma história deliciosamente narrada e desenhada com grande talento em que a figura principal da escola ukyo-e serve de desculpa para abordar a luta interna entre a criação e o artista.

De leitura ágil, direta e divertida, sofisticada quando deve ser, simples quando necessária, reflexiva, inevitavelmente apaixonada, dependendo das circunstâncias ou do momento em que assim o exigirem, o calhamaço traz uma leitura não linear, que nos tira da zona de conforto e nos faz interagir com o trabalho de homenagem do mangaká.

Existem até algumas passagens ligadas ao que poderíamos qualificar de realismo mágico, algumas belas estampas através das quais Ishinomori nos oferece a oportunidade de ver a realidade, ou a loucura, pelos olhos do artista. Em suma, em Hokusai Shotaro Ishinomori consegue contagiar-nos de entusiasmo pela personalidade do seu protagonista, o que não é trivial, porque é uma qualidade que outros relatos biográficos mais completos e detalhados não conseguem atingir.

Levando em conta tudo isso, as virtudes que o Hokusai de Shotaro Ishinomori inegavelmente guarda, é difícil acreditar  que este seja um autor tão desconhecido em nosso país. Por isso, a vontade da Pipoca &Nanquim de promover este, para muitos, um primeiro encontro, não pode ser mais do que bem recebida e apreciada. Na edição do presente trabalho da editora está incluída uma cronologia sobre Katsushika Hokusai, feita pelo próprio Ishinomori, um posfácio assinado por ele mesmo e um rico glossário, de autoria de Drik Sada, que assina a tradução.

Edição de mais de 600 páginas, capa cartão, sobrecapa com verniz localizado e marcador de página exclusivo; mas com certa transparência nas páginas que incomodam. É um trabalho que ajuda a aprofundar a figura histórica de Katsushika Hokusai e contrastar, por outro lado, o talento de Shotaro Ishinomori, o Rei do Mangá.

Nota: Ótimo – 3,5 de 5 estrelas

Shotaro IshinoMori e seu Hokusai
3.5 / 5 Crítico
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