Ego kill talent Rock in Rio 2019Show de Ego Kill Talent Palco Sunset

A justa medida entre o hard rock e um refrão magnético

No último sábado, a banda Ego Kill Talent subiu ao palco Sunset do Rock In Rio para abrir os trabalhos do dia. Nome confirmado para a abertura dos shows da próxima turnê do Metallica no Brasil em 2020, o EKT inflamou o público, apesar do mau tempo, e mostrou consistência na sua segunda apresentação no RIR, onde já havia tocado em 2017.

A competência na performance ao vivo agradou tanto os seus fãs, quanto os ouvidos de quem não conhecia seu som, confirmando, assim, sua sólida caminhada rumo à condição de uma das principais bandas de rock pesado do Brasil.

Depois de apresentações em Barcelona, Londres e Amsterdam e em festivais como o Download Fest, Rock Am Ring e Rock In Park no último ano, o EKT fez seu show tendo como base o repertório do disco homônimo de 2017. Em músicas como “We All”, “Last Ride” e “Still Here”, o grupo apresentou a justa alquimia entre o peso de um hard rock impetuoso e o poder de sedução de magnéticos refrães. Como num Foo Fighters nos seus mais pesados momentos, mas também com referências subterrâneas, como Tears For Fears, Phill Collins e até Bruno Mars. Com essa medida na mistura, o som do EKT é capaz de cativar roqueiros tradicionais, entusiastas do Stoner Rock e sensibilidades mais interessadas num rock pesado que deixa espaço aberto para o desfile da canção.

O que se viu no show de sábado foi exatamente isso. Uma rica alternância entre a roda de pogo gerada pelo barulho maciço que sai das guitarras distorcidas e deixa os corpos tomados por uma energia maravilhosamente disruptiva e o coro redentor que canta em uníssono as agradáveis notas de um chorus perfeito. A música do EKT tem com um de seus maiores trunfos a destreza com a qual se movimenta na fronteira entre uma coisa e outra. Partindo sempre do rock pesado – muitas das músicas têm afinação em lá sustenido (4 tons mais grave do que o padrão) – as composições sabem o momento exato de dosar as intensidades entre volume e silêncio, agressividade e contenção. Com isso, conseguem surpreender a audição de quem está acostumado e entediado com as obviedades tão comuns na estética do hard rock. No show de sábado, tocaram “The Searcher”, com seu elogio do riff, num clima Kyuss, seco, de Desert Rock, e tocaram a extraordinária “Heroes Kings and Gods”, com sua narrativa melódica precisa.

Rock in Rio 2019 Show Ego Kill Talent Palco Sunset

Esse equilíbrio vibrante, que emana da massa sonora produzida por todos os membros do grupo, é mantido pela habilidade do vocalista Jonathan Correa. Jonathan nos lembra como é decisiva a presença de um cantor talentoso numa banda de rock. Com seu vocal repleto de ecos dos melhores momentos do Grunge, Jonathan consegue alternar os climas e as ambiências com maestria. Evocando a faceta mais eletrizada do Pear Jam, Jonathan saber ser fluído, como em “Old Love and Skulls” e sabe vociferar, como em “Sublimated”.

Neste exercício de execução, sustentou o show do início ao fim com volume e compressão. Durante o percurso, soube aplicar a proporção necessária na economia dos sons. Quando as circunstâncias pediram momentos de erupção, invadiu as canções com o grito febril e rasgado que quase transforma o EKT numa banda de metal. Ao mesmo tempo, quando preciso, costurou com calma as histórias por detrás das letras, encontrando, cirurgicamente, aquela certeira nota de alívio.
No sábado, o cantor foi decisivo para incendiar o show, ao descer para a galera e agitar o público, depois de problemas técnicos com o equipamento no palco. Mas o EKT faz jus ao nome. E apesar do quase inevitável protagonismo na comunicação por parte do vocalista, a banda atua compacta e mutuamente confiante, sem exibicionismo egóicos. Seu espírito coletivo fica evidente no fato de que todos assinam a autoria das músicas. Além de Jonathan, o EKT é formado por Theo Van Der Loo (Baixo/Guitarra) e Niper Boaventura (Guitarra/Baixo) e por dois bateristas fora de série, Raphael Miranda (que também toca Baixo) e Jean Dolabella (que também toca Guitarra). A interação entre eles deixa transparecer a sensação de que estão satisfeitos de estarem tocando juntos, ali, naquele momento, naquele lugar e para aquela audiência, que recebe a mensagem e retribui.

Em meio à troca de instrumentos por parte dos integrantes e uma sonoridade permeada pelo bom gosto na escolha dos timbres, o EKT ainda apresentou no RIR um aperitivo do que será o novo disco. Tocou “Life Porn”, faixa inédita do álbum que será lançado em 2020, e que foi gravado no estúdio 606, de Dave Grohl, em Los Angeles. Produzido mais uma vez por Steve Evetts, que já trabalhou com Symphony X, Sepultura, Misfits, Hatebreed, The Cure e The Used, o disco terá 12 músicas e conta com a participação de Bob Burnquist, megacampeão de skate, Roy Mayorga, baterista do Stone Sour, ex-Soulfly e Shelter, e de John Dolmayan, baterista do System of a Down.

Tudo isso estava em jogo ali naquele palco Sunset, no último sábado. Depois de duas passagens pelo festival Lollapalooza, e shows de abertura para Foo Fighters, Queens of The Stone Age, Shinedown e System of a Down, foi a vez do RIR ver o EKT entregar tudo que tinha ao público.

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