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Jack White ousa para se reinventar em Boarding House Reach

“Boarding House Reach” (Third Man Records/Sony, 2018) é o disco mais diferente de Jack White. Isso já era perceptível nas faixas que foram sendo liberadas recentemente. Com o lançamento, confirmamos que esse é o momento em que o artista se direcionou a ampliar seus horizontes. A crueza da sonoridade e a devoção ao rock de raiz e ao blue grass permanecem. Mas sob uma roupagem que flerta com o modernoso. Só que, com a personalidade que tem, White consegue fazer isso sem parecer seguidor de modismos.
A primeira faixa, ‘Connected By Love’, pode causar até uma certa estranheza. Está ali o rock clássico calcado no blues. Mas também se ouvem efeitos gerados em sintetizador. Mais adiante, mais efeitos que, na verdade, seguem a mesma fluência dos costumeiros solos raivosos da guitarra de White. A verve zeppeliana característica está explícita na terceira faixa, o petardo que atende pelo nome de ‘Corporation’. É nessa música que o músico deixa aquele lembrete de que é um dos nomes mais representativos do rock de sua geração.

Em ‘Hypermisophoniac’, há uma digressão sonora. Nessa faixa, Jack White se debruça em experimentos, desconstruindo princípios do rock clássico justamente para lhe dar mais significância. O mesmo pode se dizer em relação a ‘Ice Station Zebra’. A guitarra dialoga/rivaliza com um teremim em uma cadência funkeada irresistível. ‘Over and Over and Over’ tem potencial para causar inveja ao Rage Against the Machine. Já ‘Everything You Have to Learn’ e ‘Respect Commander’ formam uma devastadora suíte.
Com ‘Get in the Mind Shaft’, temos mais um mergulho no clima eletrônico. Mas logo em seguida, White retorna à sua veia bluesy com ‘What’s Done is Done’, que pode ser considerada uma das mais inspiradas do disco. ‘Humoresque’ encerra o trabalho, com a faceta crooner do ex-White Stripes. O belo arranjo de piano é um dos destaques.
O grande mérito de “Boarding House Reach” é a redentora ousadia em dar um passo fora da curva mesmo quando tudo está a favor. A quebra de expectativas com que o disco trabalha desafia o fã de longa data a compreender essa proposta. É uma necessidade do artista autoral dar uma guinada distinta em sua discografia. Isso acontece desde os Beatles, quando resolveram expandir sua capacidade artística na segunda metade dos anos 60. Apesar de não ser um álbum perfeito, o saldo de Jack White é positivo. Ele entrega a anarquia e a confusão que andam rarefeitas hoje em dia no rock.

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