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Lazarus celebra a obra de David Bowie em uma bela ópera rock

O musical “Lazarus” faz todo sentido quando vem à lembrança toda a verve cênica de David Bowie. Muita gente se esquece que o camaleão do rock, além de uma das pedras fundamentais da música do século XX, era também ator. Um ótimo ator, diga-se de passagem. E mesmo na música, o elemento da teatralidade estava sempre presente. Nada mais digno do que receber uma peça teatral costurada com sua extensa e rica obra. Vale lembrar que “Ziggy Stardust” foi pensado inicialmente como um musical. Bowie sempre quis realizar seus musicais, que fossem únicos estranhos, crípticos e labirínticos. A peça escrita pelo dramaturgo irlandês Enda Walsh juntamente com Bowie segue esses mandamentos.

Com músicas e letras compostas por David Bowie e libreto escrito por Walsh, foi apresentado pela primeira vez no final de 2015, foi um dos últimos trabalhos que Bowie concluiu antes de sua morte, em 10 de janeiro de 2016. O musical é inspirado no romance de 1963, “O Homem que caiu na Terra”, de Walter Tevis, que ficou famoso com a adaptação cinematográfica homônima de 1976, dirigida por Nicolas Roeg e estrelada por Bowie. Após estrear no Off-Broadway em Nova York e Off-West End em Londres, essa ópera rock passou por Hamburgo, Amsterdã, São Paulo e chegou ao Rio de Janeiro, no Teatro Multiplan.

A trama, desenvolvida de forma não linear, gira em torno de Thomas Jerome Newton, um alienígena alcoólatra que está desesperado para retornar ao seu planeta natal. Nesse âmbito encontram-se Elly, assistente pessoal de Newton, que eventualmente se apaixona por ele; uma adolescente etérea que promete ajudá-lo a voltar para casa, e Valentine, uma figura sinistra que o assombra.

O intuito dos criadores foi versar sobre temas como isolamento, uso de álcool e drogas e o tormento da imortalidade. Mas paralelo a isso, focando no amor e sua beleza. Um ensaio existencial tendo clássicos das diferentes fases do artista como trilha sonora, bem executados pelo elenco e uma banda afiada. A maioria das canções ganhou versão próxima do original, mas com algumas inovações nos arranjos. ‘Young Americans’, cantada pelo elenco feminino é literalmente de arrepiar, assim como ‘Life on Mars?’ em solo de Bruna Guerin. ‘Valentine’s Day’, do recente “Next Day” (penúltimo trabalho de Bowie), ganhou uma interessante releitura.

Jesuíta Barbosa encara com galhardia seu primeiro papel de protagonista no teatro. O Thomas Newton de Lazarus remete ao Thin White Duke, persona que Bowie criou em meados dos anos 1970 (quando pegou pesado nas drogas e na bebida). Inclusive Jesuíta possui um timbre bastante próximo a do camaleão.

O diretor Felipe Hirsch foi bastante feliz em sua adaptação. No palco, que tem direção de arte de Daniela Thomas e Felipe Tassara, o cenário se inclina, com espelhos ao fundo criando duplos e projeções em uma tela transparente em frente ao palco expõem as letras das canções, enfatizando a dramaticidade da cena, enquanto a trama se desenrola. Juntamente com as imagens projetadas na plataforma inclinável e a movimentação dos atores em vários momentos se torna pendular, em congruência com essa sensação abstrata de gravidade pretendida. O efeito surtido é desconcertante.

“Lazarus” cumpre com a proposta de sintetizar nos palcos a essência do conceito artístico de David Bowie, contribuindo para a perenidade de sua criação. A poesia e a técnica empregada tornam o espetáculo uma experiência única, sobretudo para os fãs de primeira hora do artista. A temporada carioca teria fim nesse domingo, porém as sessões do final de semana não estão sendo realizadas devido ao fechamento dos teatros e cinema para prevenir a propagação do coronavírus. Fica a torcida para essas duas derradeiras apresentações acontecerem em uma nova data.

Cotação: ***** (5 estrelas de 5)

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