Rock In Rio: Muse mostra como um show de rock ainda pode ser ambicioso | Música | Revista Ambrosia
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Rock In Rio: Muse mostra como um show de rock ainda pode ser ambicioso

O Muse é uma banda que remou contra a maré. Surgiu em uma época em que os contemporâneos pareciam prezar pelo minimalismo garageiro, e shows trazendo apenas o básico: artistas, seus instrumentos e decibéis. Mas os ingleses de  Teignmouth tinham como influência o rock grandioso, com riffs poderosos, shows concebidos para grandes arenas e muita parafernália envolvida, que na virada do século era considerado algo datado por alguns. De fato é louvável se assistir a um show em que o foco está no que mais importa, que é a música. Mas um espetáculo ambicioso como os medalhões costumam fazer possui um inegável encanto. E o Muse sabe disso, por isso tomou para si a missão de manter vivo esse conceito que, de sua geração, apenas o Coldplay parece se aproximar.

O show que fechou o Rock In Rio 2019 é a primeira etapa brasileira (eles também tocam em São Paulo) da Simulation Theory World Tour, a turnê de divulgação do último disco do trio, de mesmo nome, lançado em 2018. Como o álbum é inspirado em parte no mundo dos games e da realidade virtual, eles quiseram reproduzir isso concretamente ao vivo. O resultado é uma ópera conceitual sci-fi, um misto de 1984 com Tron, fazendo crítica a regimes totalitários, em um paralelo com a arbitrariedade dos governos e a política atual. Em meio a um exército coreografado com trajes e visores com luzes de LED, portando instrumentos de sopro, emerge o vocalista e guitarrista Matthew Bellamy com óculos também de LED empunhando sua guitarra em ‘Algorithm’.

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Mas o Muse não traz apenas tecnologia de ponta. Os rapazes não deixam de lado a interação com o público e, claro, os hits acumulados ao longo de vinte anos e nove trabalhos de estúdio. Na sequência inicial vieram três sucessos de diferentes fases: ‘Pressure’, do último álbum, ‘Psycho’, de “Drones”, lançado em 2015, e um dos principais cavalos de batalha, ‘Uprising’, do “The Resistance”.

Os momentos calcados em mise-en-scène não provocam quebra de ritmo ou desviam o foco da música. E a alternância com o espaço para descontração é feita de maneira orgânica. No ato intermediário uma sequência de sucessos é enfileirada, dando a deixa para que Matthew se aproxime do público, seja encarando a câmera que retransmite a imagem para os telões laterais, como em ‘Madness’, ou partido para o corpo a corpo, como fez durante a música ‘Mercy’, quando desceu para perto do público, tirou selfie com um fã e pegou uma bandeira do Brasil, enrolando-a sobre a cabeça. Já em ‘Starlight’ regeu coro de milhares de vozes colocando a massa para cantar o refrão. E de volta à parte cênica, a reta final apresenta dois robôs animatronics e mais a seguir surge um alien gigante com capacete VR no medley ‘Stockholm Syndrome’ / ‘Assassin’ / ‘Reapers’ / ‘The Handler’ / ‘New Born’ . Ao fim, o monstrengo é “derrotado” ao som distorcido de guitarra.

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O show tem uma estrutura de início meio e fim como filme, inclusive há acenos para a sétima arte na introdução de ‘Supermassive Black Holes’, o tema de “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, ou ‘Man with a Harmonica’ de Ennio Morricone em ‘Knights of Cydonia’, a grandiloquente faixa que fecha o show. É fácil identificar de onde vem a opulência do Muse. Suas principais inspirações são o U2 e o Queen (em determinados momentos Matthew até grita no microfone Riiiiooooo, no estilo das notas de Freddie Mercury), sem contar com a excelência técnica do frontman na guitarrista, além de Christopher Wolstenholme (baixo, backing vocal e teclado) e Dominic Howard (bateria e percussão). Já do U2, notamos em Matthew alguns trejeitos e até a forma de se aproximar da câmera de Bono, sobretudo na turnê Zoo TV (que também é uma grande influência para a Simulation). É uma bem-vinda ambição que garante a sobrevida do rock como o maior espetáculo da Terra.

Fotos: Wesley Allen

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Publicado por Cesar Monteiro

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