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Festival do Rio: "Matangi/Maya/M.I.A." coloca M.I.A. revisando sua trajetória

Em seu álbum de estreia, em 2005, M.I.A. chamou atenção por sua sonoridade, que misturava bhangra indiano com batida eletrônica. Nascida Mathangi Maya Arulpragasam, a singalesa também chamou atenção por ter um pai “terrorista”, Arular, que dava nome ao álbum. Na verdade ele fazia parte do grupo armado Tigres Tâmeis, que lutava pela liberação do povo tâmil mediante a criação, no nordeste da ilha do Sri Lanka, de um Estado independente denominado Tamil Eelam. Devido ao conflito, aos nove anos de idade ela teve que se mudar com a mãe para Londres, mas nunca cortou laços com a terra natal.
Sempre envolvida com artes desde criança, queria fazer música e cinema. Influenciada pelo hip hop americano, com o qual se identificou de cara por ser um movimento marginal e de afirmação. Segundo ela, no Sri Lanka era discriminada por ser tamil e na Inglaterra por ser “paki” (termo preconceituoso usado para classificar naturais do subcontinente indiano).
O interesse de M.I.A. pelo cinema documental a fez colher imagens que a permitiram criar um documentário sobre sua própria vida. O resultado é “Matangi/Maya/M.I.A.”, que pode, sem exagero, ser considerado um dos mais interessantes documentários de artista musical dos últimos anos. A artista traça um paralelo de sua visita ao Sri Lanka em 2001, mostrando a situação dos parentes em um período difícil da região, e sua própria carreira, que começou com uma amizade com a vocalista do Elastica Justine Frischmann, ainda nos anos 90, que a chamou para participar do clipe de ‘Mad Dog God Dam’. M.I.A. saiu em turnê com a banda e ia documentando a rotina do grupo. Ali, surgiram seus primeiros experimentos musicais.
Festival do Rio: "Matangi/Maya/M.I.A." coloca M.I.A. revisando sua trajetória | Críticas | Revista Ambrosia
No que tange à carreira, o longa mostra a ascensão de M.I.A. em popularidade nos anos 2000, a partir de quando ela levou as demos para a gravadora independente XL Recordings. mas depois foca em sua veia política.
A cantora mostra como enfrentou dificuldade em se fazer ouvir quando falava sobre questões humanitárias, e como a mídia fazia pouco do que ela tinha para verbalizar. O documentário mostra a entrevista no programa de Bill Maher. Ela tentava entrar na questão do Sri Lanka e o apresentador tentava mudar de assunto fazendo piadinhas. E esse era o tom de todas as suas participações em programas na TV americana. O episódio do Superbowl em 2012 quando se apresentou com Madonna e Nicki Minaj no show do intervalo também é abordado. Na ocasião, ela mostrou o dedo do meio durante o trecho em que assume o vocal na música Give Me All Your Luv. O gesto, obviamente, causou muita celeuma. Mais uma vez ela foi pega para Cristo na América. No filme vemos como a chuva de críticas nos EUA a afetaram.
Curiosamente não há nenhuma menção ao Brasil no documentário. Para quem não se lembra, a música Bucky Done Gone, que foi um hit do primeiro álbum, contava com um sampler de funk carioca. Seu namorado na época, o DJ e produtor Diplo, a apresentou às músicas da funkeira Deize Tigrona. Ela até fez uma participação no show de M.I.A. na edição de 2005 do Tim Festival. Por fim, “Matangi/Maya/M.I.A.” é um registro sincero e franco da artista se colocando em um divã, sendo submetida a um saudável revisionismo.

Cotação: 4/5 – Ótimo

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Publicação Cesar Monteiro